Últimos Posts

Autor de romance LGBTQIAPN+ e neurodivergente lança livro na Avenida Paulista e fala sobre pertencimento

A cena literária LGBTQIAPN+ brasileira ganha mais um lançamento importante neste fim de semana em São Paulo. O escritor Gui Ribeiro promove neste domingo, 17 de maio, a partir das 15h, uma sessão de autógrafos de As palavras não ditas na mega Livraria da Vila, um dos pontos culturais mais movimentados da Avenida Paulista.

Publicado pela Plataforma21, o romance acompanha Levi, um jovem autista vivendo descobertas afetivas e emocionais em uma época em que o Transtorno do Espectro Autista sequer era reconhecido socialmente. Em meio a silêncios, inseguranças e sentimentos reprimidos, o personagem tenta compreender o próprio lugar no mundo enquanto enfrenta as dificuldades de existir fora dos padrões esperados.

Com linguagem delicada e foco em pertencimento, desejo e identidade, As palavras não ditas vem chamando atenção justamente por unir protagonismo LGBTQIAPN+ e neurodivergente dentro de uma narrativa de época. Em entrevista à Revista ViaG, Gui Ribeiro falou sobre representatividade, literatura YA nacional, cultura geek e a importância de criar histórias onde pessoas queer possam se enxergar vivendo grandes amores.

Confira a entrevista completa:

“As palavras não ditas” traz um protagonista autista em uma época em que o TEA sequer era nomeado. Como foi construir emocionalmente esse personagem sem cair em imagens contemporâneas?

Quando penso no Levi, penso especialmente naquilo que está dentro do seu coração. Cada camada foi construída junto ao enredo, conforme ele próprio ia se descobrindo. Sim, o TEA não era conhecido na época, por isso nem sequer é mencionado durante a história, mas as características de uma pessoa no espectro ainda poderiam ser as mesmas. O Levi entende o mundo com uma sensibilidade muito maior, sofre com a quantidade de estímulos e ele não consegue realmente prever suas interações sociais.

O livro trabalha pertencimento, desejo e afeto em silêncio, quase como algo subterrâneo. Você acredita que pessoas LGBTQIAPN+ e neurodivergentes ainda vivem, de certa forma, esse lugar das “palavras não ditas”?

Infelizmente, acredito que sim. Há muito que não é dito pelo medo, a repressão e a falta de segurança. O que é algo tão simples para uma pessoa hétero e neurotipica se torna o maior dos desafios para alguém LGBTQIAPN+ ou neurodivergente. Como acreditar em um final feliz, quando dizem que não teremos um? Por isso quis trabalhar a questão de pertencimento e o afeto com a história do Levi.

Existe um crescimento importante da literatura Young Adult brasileira com protagonismo LGBTQIAPN+. Como você enxerga esse movimento hoje no mercado editorial nacional?

A meu ver, é o movimento mais importante que temos no mercado literário nacional. É preciso que as novas gerações leiam e acreditem que podem estar ali, vivendo grandes histórias e amores, sem que tenham medo de serem quem são. Mas entendo, também, que o gênero YA é algo que pode ajudar a curar aquela ferida que muitas pessoas LGBTQIAPN+ adultas ainda carregam no peito; ler um YA depois de adulto é quase como olhar para o passado e se perdoar por não ter acreditado num final feliz, e entender que, agora, você pode.

Levi é um personagem que sente muito, mas talvez nem sempre consiga traduzir isso socialmente. Você acredita que o amor ainda é interpretado de forma muito normativa na literatura?

Com certeza! Basta olharmos para qualquer enredo que fuja disso que encontramos chuvas de comentários odiosos e cheios de raiva. Se mais pessoas fossem abertas a entender que há mais de uma única forma de entender o amor, já seria um caminho muito mais fácil de percorrer.

Você começou a publicar muito jovem. O Gui Ribeiro de 12 anos imaginava que um dia lançaria um romance com protagonismo queer e neurodivergente na Avenida Paulista?

Eu adorei essa pergunta, porque a verdade é que, sim, ele imaginava! Haha
Na verdade, desde pequeno eu sabia que lançaria um livro na Av. Paulista. Pensei que seria na falecida Livraria Cultura, mas encontrei um carinho ainda maior na Livraria da Vila. Desde o instante em que escrevi a primeira versão de “As palavras não ditas”, eu tive certeza de que esse seria meu primeiro livro com uma grande editora e que iria mudar tudo.

O universo geek aparece bastante quando você fala sobre si mesmo. Quais referências da cultura pop, literatura ou cinema influenciaram “As palavras não ditas”?

Não consigo negar, sou geek de coração e sempre serei. Arrisco dizer que grande parte da influência para esse livro veio de um cantor chamado “Novo Amor” — cada álbum dele me inspirava mais e mais a seguir com o enredo, fora todas as referenciais literárias que estão dentro do livro, como Jane Eyre, Alice no País das Maravilhas, Grandes Esperanças, Otelo e tantas outras.

O mercado editorial ainda trata histórias LGBTQIAPN+ como nicho ou você sente uma mudança real no interesse do público?

Ainda somos um nicho, mas acredito que histórias como “As palavras não ditas” conseguem furar essa bolha e alcançar o público geral pela universalidade dos sentimentos do personagem. Todos já tivemos medo de não pertencer, todos já cometemos erros e todos já nos apaixonamos uma primeira vez, então espero que cada vez mais histórias como essa ganhem o mercado editorial para que deixemos de ser um nicho e as pessoas enxerguem histórias de amor que são, sim, universais.

Você acredita que personagens autistas ainda são pouco representados na ficção brasileira, especialmente fora de narrativas médicas ou pedagógicas?

Sem dúvida. A luta pela representatividade precisa continuar e ampliar para âmbitos de relações sociais que retratem essas pessoas justamente como o que são: pessoas. Há muitos estereótipos que as prendem em determinadas narrativas que não são 100% verdade e obras nacionais precisam despertar para isso.

Seu livro fala muito sobre emoções reprimidas. Você acha que vivemos uma geração mais livre para sentir ou apenas mais exposta?

Acho que vivemos em uma geração em que somos livres para sentir, mas a maneira com que todos estão tão conectados a todo tempo, tornando tudo exposto, faz com que menos pessoas realmente demonstrem o que sentem. O constante julgamento e perseguição em redes sociais limita essa liberdade então, no fim, as pessoas estão se permitindo sentir, ao mesmo tempo que fingem que não, para se proteger.

O evento de lançamento de As palavras não ditas é gratuito e aberto ao público. Além da sessão de autógrafos, a proposta é criar um espaço de troca sobre literatura LGBTQIAPN+, representatividade neurodivergente e os novos caminhos da ficção Young Adult brasileira.

Serviço
Lançamento de As palavras não ditas + sessão de autógrafos com Gui Ribeiro
17 de maio, domingo, a partir das 15h
Mega Livraria da Vila
Entrada gratuita

Ricardo Hida
Ricardo Hida
Ricardo Hida, PhD, é jornalista, trend setter e aficionado por mitologia, moda e viagens. Pesquisador na PUC-SP em estudos de gênero. Apresentador na 95,7 FM em São Paulo e sócio da Promonde. Autor de coautor de 11 livros. Desde 2003 trabalha com turismo LGBT.

Latest Posts

Cadastre-se e receba a nossa newsletter

Mais Lidas