Entre tantas estreias que movimentam a cena cultural de São Paulo neste mês, uma delas tem chamado atenção especialmente do público LGBT+ que cresceu assistindo às opiniões afiadas, aos caftãs exuberantes e ao senso estético inconfundível de Clodovil Hernandes. O espetáculo “Clô, pra sempre” marca o retorno de Eduardo Martini ao universo do estilista em uma montagem que mistura memória, moda, televisão e solidão em doses bastante humanas.
Depois de vencer o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Ator em 2022 com “Simplesmente Clô”, Martini revisita agora o personagem em um novo monólogo, mais íntimo e emocional, que mergulha nas contradições de uma das figuras mais fascinantes da cultura pop brasileira. A peça estreou em maio no Teatro Mooca e segue em curta temporada até junho.
O texto, assinado por Raphael Gama, não tenta transformar Clodovil em herói ou vilão. Pelo contrário. A montagem parece entender justamente aquilo que fazia dele um personagem tão magnético para a televisão brasileira: a impossibilidade de classificá-lo de maneira simples. Clodovil era sofisticado e cruel, engraçado e melancólico, elegante e profundamente solitário. E Eduardo Martini trabalha essas nuances com maturidade, sem cair na caricatura.
Para leitores da Revista ViaG que gostam de programas culturais em São Paulo, a peça surge como uma ótima dica de teatro LGBT+ friendly na cidade. Não apenas porque Clodovil atravessa décadas como um ícone gay involuntário da televisão brasileira, mas porque o espetáculo também fala sobre pertencimento, rejeição, envelhecimento e a construção de uma persona pública em um país ainda desconfortável com diferenças.
A direção de Viviane Alfano aposta numa encenação elegante e emocionalmente contida, deixando espaço para que o texto e a interpretação conduzam a experiência. Em cena, Clodovil revisita passagens da infância, os bastidores da televisão, os afetos frustrados, o único grande amor e até sua controversa passagem pela política como deputado federal.
O resultado é um retrato mais humano do que nostálgico. Em vez de transformar Clodovil apenas em meme ou referência fashion, “Clô, pra sempre” resgata a dimensão emocional de alguém que construiu uma armadura estética para sobreviver à própria vulnerabilidade. Talvez por isso a peça dialogue tão bem com o público contemporâneo, especialmente em tempos de redes sociais, hipervisibilidade e personagens cuidadosamente fabricados.
Outro ponto interessante é perceber como a figura de Clodovil permanece atual dentro da cultura brasileira. Muito antes da explosão dos influenciadores de moda, ele já misturava opinião, lifestyle, comportamento e entretenimento com uma assinatura absolutamente reconhecível. Seu impacto na televisão, na moda nacional e até no imaginário gay brasileiro segue vivo, mesmo anos após sua morte.
Para quem procura um programa cultural diferente em São Paulo durante maio e junho, especialmente na Zona Leste, o espetáculo entrega emoção, memória afetiva e uma reflexão interessante sobre fama, identidade e solidão.
“Clô, pra sempre”
Texto: Raphael Gama
Direção: Viviane Alfano
Com Eduardo Martini
Temporada até 28 de maio, às quintas-feiras, às 20h, e de 3 a 17 de junho, às quartas-feiras, também às 20h.
Local: Teatro Mooca
Duração: 60 minutos
Classificação: 10 anos
Ingressos disponíveis em Sympla Bileto e na bilheteria do teatro.


