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“Eu vou para a boate Pulse, em Orlando, porque me sinto confortável lá, e posso ser eu mesmo”

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

 

 

Alejandro Francisco, de 21 anos, sobreviveu ao massacre que vitimou 50 pessoas na boate Pulse, frequentada principalmente pelo público LGBT, na madrugada de domingo (12), em Orlando, na Flórida. O jovem escreveu uma carta aberta ao atirador, identificado como Omar Sadiqqui Mateen, morto pela polícia.

Leia a carta completa abaixo:

 

“Eu sou um jovem homem gay, nasci em Nova Jersey e cresci em Orlando. Eu amo meus parentes, amo meus amigos. Sou metade porto riquenho, metade dominicano, tenho 21 anos; e, às duas da manhã da madrugada de domigo, você quase tirou minha vida.

“Eu vou para a boate Pulse, em Orlando, porque me sinto confortável lá, e posso ser eu mesmo. Muitos dos meus amigos estavam lá naquela noite, inclusive meu amigo Stanley. Eu nunca mais verei Stanley na vida. Você tirou Stanley de mim.

“Sábado à noite era a noite latina, e era um clima de festa por causa da Parada do Dia de Porto Rico. Era uma noite quente, e o clube estava repleto de vida e de amor e de dança – antes de você chegar – puro prazer.

“Meus amigos e eu chegamos na Pulse por volta das 11 da noite. Eu já ia ao clube há alguns anos, e é um lugar maravilhoso para realmente ser você mesmo em Orlando. Nós estavamos tendo um final de semana incrível, e nós estavamos planejando ficar até fechar, mas, como descobrimos mais tarde, meu amigo Vincent teve uma premonição de que queria sair antes que todos tentassem sair de uma vez,

“Meu amigo Vicent salvou minha vida.

“Do outro lado da rua, momentos depois de sairmos, nós ouvimos os disparos começando. Eles soavam como fogos de artifício. Nós estavamos aterrorizados. Nós vimos pessoas correndo ao nosso redor, algumas delas pulando as grades. Nós não tinhamos ideia de que acabavamos de escapar de um pesadelo.

“Minutos depois de sairmos, sem perceber quão preciosos foram aqueles minutos, foi quando o massacre começou.

“‘O ataque a tiros com mais mortos em solo estadunidense’

“‘O pior ataque terrorista desde o 11 de setembro’

“Por favor. Vamos chamar isso do que aconteceu de fato: o pior ataque – ao amor – em solo estadunidense.

“Edward, Stanley, Luis, Akyra, Juan, Eric, Peter, Kimberly, Eddie, Enrique, Anthony, Jonathan, Yilmary, Cory, Mercedez, Deonka, Miguel, Jason, Darryl, Jean Carlos and Lus Daniel, Oscar and Simon, Shane, Amanda, Marin, Gilberto, Javier, Tevin, Alejandro, Franky, Xavier, Joel, Juan, Luis, Juan, Jerald, Leroy, Jean, Rodolfo, Brenda, Christopher, Angel, Frank, Paul, Antonio, Cristopher, Geraldo…

“Esses homens e mulheres são estranhos para você. Todos eles tinham um presente precioso, uma graça especial que você nunca teria. Isso está claro. Eu sei que você tinha filho e esposa e um pai e uma mãe, mas você nunca teve o que eles tinham. Você nunca poderia ter. O que aconteceu nunca teria acontecido se você tivesse.

“Mas Omar, você falhou.

“Você tentou massacrar a única coisa que você nunca conseguirá destruir em nossa comunidade. Nunca.

“Você não pode tirar nosso amor.

“Isso é mais poderoso do que qualquer coisa que existe no mundo.

“Eu tenho 21 anos agora, mas eu me assumi aos 16 anos. Eu lembro das minhas palavras: ‘Mãe… Eu sou gay.’

“Violência sempre fez parte da minha vida. Desde que eu estava na quinta série, faziam piadas de mim e me chamavam de bicha. Eu tive que lutar por dignidade e respeito em toda a minha vida. Mas naquele momento, quando me assumi para minha mãe, ela olhou para mim, e ela sabia. I poderia dizer que ela sempre soube, e ela me amava tanto. Ela me ofereceu um olhar que dizia que ela me amaria para sempre.

“‘Ok’, minha mãe respondeu. ‘E aí?’

“E… ela não se importou. Ela me viu como seu filho. Ela me viu do mesmo jeito que sempre viu. Ela me olhou com os olhos transformadores e cicatrizantes do amor.

“Eu sinto muito que você nunca tenha tido isso em sua vida. No entanto, não consigo imaginar o que você queria tanto para fazer isso.

“Depois de quase termos morrido, de termos escapado por pouco da sua ira, meus amigos e eu andamos por aí como zumbis o dia inteiro. Nós sobrevivemos, mas agora todos temos algumas perguntas. O que nós faremos agora? Por que eu ainda estou aqui? Como isso pôde acontecer? 

“E, é claro – por que, por que, por que você nos odeia tanto assim? 

“Eu sei que só existe uma resposta. Todas as vezes que faço essas perguntas, a única coisa que faz sentido lógico para mim no mar de devastação e corações partidos e mágoa.

“Eu penso em Eddie Justice, que sentou no banheiro e mandou as mensagens aterrorizadas: ‘Eu vou morrer. Mãe. Eu te amo’.

“Violência ao redor dele, e ele encontrou o amor.

“Omar, nós somos mais fortes que o seu ódio. Nós sempre seremos.

“Eddie não sobreviveu.

“Stanley não sobreviveu. Edward não sobreviveu. Luis não sobreviveu. Akyra não sobreviveu. Luis não sobreviveu. Juan não sobreviveu. Eric não sobreviveu. Peter não sobreviveu. Kimberly não sobreviveu. Eddie não sobreviveu. Enrique não sobreviveu. Anthony não sobreviveu. Jonathan não sobreviveu. Yilmary não sobreviveu. Cory não sobreviveu. Mercedez não sobreviveu. Deonka não sobreviveu. Miguel não sobreviveu. Jason não sobreviveu. Darryl não sobreviveu. Jean não sobreviveu. Carlos e Luis Daniel não sobreviveram. Oscar e Simon não sobreviveram. Shane não sobreviveu. Amanda não sobreviveu. Martin não sobreviveu. Gilberto não sobreviveu. Javier não sobreviveu. Tevin não sobreviveu. Alejandro não sobreviveu. Franky não sobreviveu. Xavier não sobreviveu. Joel não sobreviveu. Juan não sobreviveu. Luis não sobreviveu. Luis não sobreviveu. Juan não sobreviveu. Jerald não sobreviveu. Leroy não sobreviveu. Jean não sobreviveu. Rodolfo não sobreviveu. Brenda não sobreviveu. Cristopher não sobreviveu. Angel não sobreviveu. Frank não sobreviveu. Paul não sobreviveu. Antonio não sobreviveu. Christopher não sobreviveu. Geraldo não sobreviveu…

“Mas o amor sim.

“Na verdade, ele só cresceu mais forte.”

 

Fonte: M de Mulher

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Escrito por alexbernardes