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Jung Kook, Calvin Klein e o fim da masculinidade engessada

Durante muito tempo, a moda masculina ligada ao universo pop foi construída a partir de códigos rígidos de virilidade. O cantor Jung Kook ajuda a mostrar como isso mudou. O lançamento de sua coleção com a Calvin Klein não chama atenção apenas pelas peças ou pela força do K-pop, mas porque simboliza uma transformação mais profunda no comportamento masculino contemporâneo. Entre underwear aparente, jeans amplos, referências esportivas e sensualidade calculada, o artista se tornou um dos rostos de uma geração que já não separa masculinidade de vaidade, emoção e performance estética.

Para o público LGBT+, especialmente entre millennials e geração Z, essa mudança vem sendo percebida há alguns anos. A influência coreana ajudou a popularizar um visual masculino menos preso à ideia tradicional de “homem alfa”, aproximando beleza, skincare, moda e expressão emocional. Diferentemente do padrão ocidental dos anos 1990 e 2000, marcado pela hipermasculinidade agressiva, artistas do K-pop passaram a ocupar campanhas globais explorando delicadeza, sensualidade e fluidez visual sem necessariamente abandonar referências consideradas masculinas. O sucesso internacional de Jung Kook evidencia justamente esse novo equilíbrio entre força, vulnerabilidade e construção estética.

A movimentação também tem impacto direto no turismo, na cultura pop e no consumo LGBT+ global. Cidades como Seul se transformaram em destinos desejados por fãs interessados não apenas em música, mas em moda, beleza, cafés temáticos e experiências ligadas ao lifestyle coreano. No Brasil, esse fenômeno já aparece em festivais, festas temáticas, lojas de cosméticos asiáticos e no crescimento do interesse por tendências genderless. Mais do que uma febre passageira, o avanço do K-pop no mercado fashion mostra como a Ásia passou a influenciar comportamentos que antes eram quase monopolizados pela indústria americana e europeia.

O caso de Jung Kook talvez explique algo maior sobre a moda masculina atual: ela deixou de funcionar apenas como símbolo de status para se tornar linguagem emocional. Para muitos homens gays, bissexuais ou queer, isso representa também uma libertação estética. A roupa já não serve apenas para parecer másculo ou discreto, mas para construir identidade, desejo e pertencimento. Nesse cenário, campanhas de moda deixam de vender somente peças de roupa. Elas vendem imaginários. E poucos mercados entenderam isso tão rapidamente quanto o K-pop.

Ricardo Hida
Ricardo Hida
Ricardo Hida, PhD, é jornalista, trend setter e aficionado por mitologia, moda e viagens. Pesquisador na PUC-SP em estudos de gênero. Apresentador na 95,7 FM em São Paulo e sócio da Promonde. Autor de coautor de 11 livros. Desde 2003 trabalha com turismo LGBT.

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