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Pegação fitness

O universo dos aplicativos de relacionamento gay sempre funcionou como um espelho das tensões do próprio meio LGBT+. Durante anos, aplicativos transformaram estética, masculinidade e desejo em categorias quase algorítmicas. Agora, uma nova onda de plataformas voltadas ao wellness e ao universo fitness leva esse processo a outro patamar. Aplicativos como o norte-americano ATEAM, lançado em 2026, unem academia, biohacking, saúde e exclusividade em uma espécie de clube social para corpos considerados “aptos”. A promessa é criar conexões mais profundas e saudáveis. A pergunta inevitável é: saudáveis para quem?

O discurso da chamada wellness era mudou a lógica do consumo e também da sedução. Dormir bem, monitorar calorias, medir performance física e investir em autocuidado deixaram de ser apenas hábitos individuais para se tornarem marcadores sociais de status. No mercado gay masculino, historicamente atravessado por padrões rígidos de corpo, juventude e performance, essa tendência encontra terreno fértil. O problema é que o conceito de “fitness” muitas vezes aparece menos ligado à saúde e mais próximo de uma curadoria estética e econômica. No caso do ATEAM, os usuários passam por uma seleção feita por treinadores, modelos e “formadores culturais”. O amor passa a funcionar como um processo de aprovação social.

Existe uma camada mais delicada nessa discussão. O culto ao corpo sempre ocupou papel importante na sociabilidade gay, especialmente em grandes cidades como São Paulo, Rio, Nova York ou Barcelona, onde academia, beach clubs e circuitos eletrônicos se misturam à vida afetiva. Mas a transformação do wellness em critério explícito de pertencimento pode aprofundar exclusões já antigas dentro da comunidade LGBT+, envolvendo idade, gordofobia, racialização, masculinidade compulsória e poder aquisitivo. Pesquisadores vêm apontando há anos que aplicativos gays reproduzem hierarquias corporais e sociais do mundo offline, apenas com velocidade maior e validação algorítmica.

Ao mesmo tempo, o crescimento dessas plataformas revela um esgotamento do próprio modelo tradicional dos apps de pegação. Parte do público gay demonstra cansaço diante da hiperestimulação, dos bots, da monetização excessiva e da superficialidade das conexões digitais. Novos aplicativos tentam vender exclusividade, comunidade e autenticidade como diferencial. Ainda assim, a sensação é de que o mercado apenas trocou a lógica do “sem afeminados” pela do “somente wellness”. No fim, talvez a discussão mais importante não seja sobre músculos ou aplicativos, mas sobre quem continua sendo considerado desejável, visível e digno de afeto dentro da própria comunidade gay.

Ricardo Hida
Ricardo Hida
Ricardo Hida, PhD, é jornalista, trend setter e aficionado por mitologia, moda e viagens. Pesquisador na PUC-SP em estudos de gênero. Apresentador na 95,7 FM em São Paulo e sócio da Promonde. Autor de coautor de 11 livros. Desde 2003 trabalha com turismo LGBT.

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