Série polonesa premiada acompanha um modelo gay que assume os cuidados da sobrinha e enfrenta uma pergunta incômoda: quem a sociedade considera apto a formar uma família?
A primeira impressão de Filip Raczyński não ajuda muito. Bonito, modelo, perto dos 30 anos, ele bebe pela manhã, usa drogas, chega atrasado aos trabalhos, acumula dívidas e atravessa noites entre clubes e encontros sexuais. Filip parece ter transformado a irresponsabilidade em estilo de vida. É justamente esse homem que, após a morte repentina da irmã, se vê diante de Tosia, sua sobrinha ainda pequena. Sem os pais por perto e marcado por uma infância passada no sistema de acolhimento, Filip decide cuidar da menina.
Essa é a premissa de Orgulho, título brasileiro de Proud, série polonesa da HBO Max que estreou em 12 de junho de 2026 e terá oito episódios lançados semanalmente até 31 de julho. A plataforma brasileira confirma a produção em seu catálogo com Ignacy Liss e Alicja Lewczuk no elenco.
O que poderia facilmente escorregar para uma história edificante sobre amadurecimento segue por outro caminho. Orgulho, série da HBO Max, prefere colocar o espectador diante de uma questão bem menos confortável: por que gays ainda precisam demonstrar uma espécie de excelência moral para terem reconhecida sua capacidade de amar e cuidar de uma criança?
Orgulho, série da HBO Max, começa com um gay difícil de defender
Filip é interpretado por Ignacy Liss sem qualquer esforço para transformá-lo rapidamente em herói. O personagem é egoísta, inconsequente e, em diversos momentos, exaustivo. Sua vida se organiza em torno da aparência, do prazer imediato e de uma capacidade quase infantil de acreditar que alguém resolverá os problemas deixados pelo caminho.
A construção é importante porque desafia uma convenção antiga da representação LGBT+ no cinema e na televisão. Durante décadas, personagens gays precisaram ser exemplares para conquistar a simpatia do público. Eram frequentemente sensíveis, cultos, bem-sucedidos ou vítimas absolutamente inocentes de alguma forma de preconceito.
A série, concebida e dirigida por Karol Klementewicz e escrita por ele em parceria com Monika Pęcikiewicz, apresenta um homem gay repleto de defeitos antes de introduzir o conflito central da história. O espectador conhece sua desordem antes de vê-lo com Tosia. Segundo a apresentação oficial do festival Séries Mania, a produção acompanha um jovem levado ao limite e obrigado a assumir o controle da própria vida diante de responsabilidades inesperadas.
Essa escolha torna Orgulho particularmente interessante. A pergunta não é se Filip é um cidadão exemplar. A pergunta é se os seus erros anulam sua capacidade de construir uma relação de cuidado.
Orgulho discute família gay dentro da realidade da Polônia
A nacionalidade da série está longe de ser um detalhe. Na Polônia, os direitos de pessoas LGBT+ continuam no centro de disputas políticas e culturais. O país não permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo em seu território, embora decisões recentes no âmbito europeu tenham ampliado a pressão pelo reconhecimento jurídico de uniões realizadas em outros países da União Europeia. Em dezembro de 2025, o governo polonês aprovou uma proposta de contratos de coabitação que incluía casais do mesmo sexo, mas o texto ficou abaixo da equiparação ao casamento e enfrentou forte resistência conservadora.
A adoção conjunta por casais do mesmo sexo também não é reconhecida no país. Dados jurídicos compilados pela ILGA World mostram como os direitos de adoção permanecem desiguais entre os países e dependem da legislação nacional. É dentro desse ambiente que Filip tenta permanecer com Tosia.
Em determinado momento, um advogado sugere que ele deveria, temporariamente, “parar de ser gay”. A frase, destacada também pela crítica do The Guardian, resume parte da violência silenciosa examinada pela série.
Ninguém exige que um homem heterossexual abandone sua heterossexualidade para demonstrar capacidade paterna. Para Filip, entretanto, sua vida íntima passa a integrar uma espécie de investigação moral.
O problema apresentado por Orgulho ultrapassa a legislação polonesa. A série expõe um mecanismo conhecido por muitos homens gays: a sensação de que qualquer falha individual pode ser usada como argumento contra todo um grupo.
Um pai heterossexual irresponsável é um pai irresponsável. Um gay irresponsável cuidando de uma criança pode, aos olhos de setores conservadores, transformar-se em prova de que gays não deveriam criar filhos.
Ignacy Liss transforma Filip no centro de Orgulho
A atuação de Ignacy Liss foi reconhecida antes mesmo da estreia da série no streaming. Orgulho teve sua première mundial no Séries Mania 2026, realizado em Lille, na França, e conquistou o Grand Prix da Competição Internacional. Liss recebeu ainda o prêmio de Melhor Ator da competição.
O reconhecimento ajuda a explicar a repercussão internacional da produção.
Liss trabalha com um personagem que poderia facilmente cair na caricatura do gay hedonista. Festas, drogas, sexo casual e trabalhos como modelo estão presentes desde o início. Entretanto, a série não trata esses elementos como um julgamento definitivo sobre Filip.O ator permite que a insegurança apareça gradualmente.
Há uma diferença entre mudar de personalidade e descobrir capacidades que nunca foram exigidas. Filip continua impulsivo. Continua tomando decisões ruins. O surgimento de Tosia não produz uma conversão moral instantânea. O que muda é a existência de alguém que depende dele.
A relação com a criança funciona justamente porque não é apresentada como um manual de paternidade. O cotidiano se impõe através de pequenas necessidades, da falta de experiência e do medo constante de perder a sobrinha.
A crítica britânica recebeu a série de forma especialmente positiva. O The Guardian observou que, apesar de uma premissa potencialmente sentimental, a produção mistura realismo, humor físico e dor, destacando ainda a construção visual e a relação convincente entre Filip e Tosia.
A família escolhida ocupa espaço central em Orgulho
Ao redor de Filip existe outra família: Olek, interpretado por Kamil Studnicki, e Kiki, vivida por Maria Sobocińska, integram o círculo afetivo do protagonista. São personagens que conhecem suas falhas, convivem com suas crises e, apesar disso, permanecem por perto.
A ideia de família escolhida possui longa história dentro da cultura LGBT+. Durante boa parte do século XX, gays e lésbicas expulsos de casa ou afastados de seus parentes construíram redes próprias de cuidado. Amigos passaram a ocupar funções que, tradicionalmente, pertenciam a irmãos, pais e outros familiares.
Durante a epidemia de HIV e aids, especialmente nos anos 1980 e 1990, essas redes ganharam importância ainda maior. Em muitos casos, amigos e parceiros acompanharam doentes abandonados pelas famílias biológicas. Filip não está completamente sozinho porque construiu relações. São vínculos imperfeitos, às vezes caóticos, mas capazes de funcionar como rede de apoio quando sua vida desaba.
A chegada de Tosia amplia essa estrutura. A menina não simplesmente transforma Filip em pai. Ela entra em um grupo de pessoas que aprende, coletivamente, a cuidar dela.
Talvez esteja aí uma das observações mais interessantes da série: famílias raramente são construídas por indivíduos completamente preparados.
Orgulho chega à HBO Max após vencer o Séries Mania
A trajetória internacional de Orgulho começou antes de sua chegada ao catálogo brasileiro. O Séries Mania, realizado anualmente em Lille, é um dos principais festivais internacionais dedicados exclusivamente à produção televisiva. Na edição de 2026, Proud venceu o Grand Prix da Competição Internacional, enquanto Ignacy Liss recebeu o prêmio de Melhor Ator.
A premiação colocou a produção polonesa no radar da imprensa especializada meses antes de sua estreia em 12 de junho. No Brasil, a série recebeu o título Orgulho e está disponível na HBO Max. A primeira temporada possui oito episódios. Os capítulos estreiam às sextas-feiras, com o último previsto para 31 de julho de 2026.
O calendário de lançamento começou em 12 de junho, seguido por novos episódios em 19 e 26 de junho, 3 e 10 de julho. Os capítulos seguintes estão programados para 17, 24 e 31 de julho.
A opção pelo lançamento semanal também favorece uma série construída sobre a transformação gradual de seu protagonista. Filip não se torna responsável ao final do primeiro capítulo. Sua relação com Tosia exige tempo, erros e mudanças pequenas.
Orgulho fala de paternidade gay sem criar um gay perfeito
Existe uma armadilha frequente nas histórias LGBT+ sobre família: a necessidade de apresentar personagens quase irrepreensíveis.
É compreensível. Quando direitos básicos permanecem em disputa, a ficção muitas vezes assume uma função pedagógica. O gay precisa ser o melhor pai. O casal precisa ser estável. A casa precisa funcionar. A criança precisa ser feliz. Filip não é o candidato ideal à paternidade segundo praticamente qualquer critério convencional. A série sabe disso e utiliza justamente essa inadequação para formular sua questão central.
Pais heterossexuais não precisam representar todos os heterossexuais. Suas falhas pertencem a eles.Personagens gays, durante muito tempo, carregaram o peso de representar uma comunidade inteira. Ao permitir que Filip seja sexual, irresponsável, vaidoso, engraçado e profundamente afetivo, Orgulho reivindica algo ainda raro na representação LGBT+: o direito à contradição.
Talvez por isso a série polonesa consiga discutir família sem transformar seus personagens em símbolos ambulantes. Tosia não aparece para “curar” a homossexualidade ou apagar o passado de Filip. E Filip não precisa se tornar heteronormativo para descobrir que pode amar uma criança.
Se famílias são construídas através de cuidado, presença e responsabilidade, quem tem autoridade para decidir previamente quais pessoas são incapazes de formá-las?
Orgulho, série da HBO Max, não oferece uma resposta confortável. Prefere acompanhar Filip enquanto ele tenta encontrar a própria.


