Pesquisa global mostra que parte da comunidade LGBTQ+ continua alterando comportamentos durante viagens por questões de segurança, influenciando destinos, experiências e até o uso da inteligência artificial.
O turismo costuma ser associado à liberdade, descoberta e expressão individual. Para uma parcela significativa da população LGBT+, porém, viajar ainda envolve cálculos de risco, adaptações de comportamento e escolhas motivadas pela segurança.
Uma pesquisa internacional divulgada pela Booking.com em 2026 revela que esconder a orientação sexual ou a identidade de gênero continua sendo uma realidade para muitos viajantes. O levantamento ouviu mais de 13 mil pessoas LGBT+ em 19 países, incluindo o Brasil, e aponta uma contradição que acompanha o turismo contemporâneo: enquanto a indústria investe em inclusão, milhões de viajantes ainda sentem necessidade de filtrar partes de sua identidade para circular pelo mundo.
Os dados ajudam a compreender um fenômeno que vem sendo estudado por organizações ligadas ao turismo, aos direitos humanos e ao mercado de viagens LGBT+, estimado em centenas de bilhões de dólares anuais em gastos globais.
Entre os brasileiros entrevistados, apenas 38% afirmam assumir abertamente sua orientação sexual durante viagens. O número chama atenção quando comparado aos 73% que dizem viver essa identidade de forma aberta entre amigos próximos.
A diferença sugere que muitos viajantes adaptam comportamentos ao sair de seus ambientes habituais. Em alguns casos, a decisão está ligada a fatores culturais, religiosos ou legais dos destinos visitados. Em outros, decorre da percepção de insegurança em hotéis, espaços públicos, bares ou atrações turísticas.
A pesquisa mostra ainda que 31% dos entrevistados brasileiros afirmam que esconderiam sua identidade para conhecer um destino considerado especial ou desejado. O dado revela como o turismo LGBT+ continua atravessado por negociações entre desejo, segurança e liberdade individual.
O tema ganha relevância em um contexto global em que diversos países ainda mantêm legislações restritivas à população LGBT+. Segundo a organização internacional ILGA World, dezenas de países ainda criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo, enquanto outros impõem restrições legais ou sociais à população trans.
Aumento das precauções redefine o comportamento dos viajantes
O estudo aponta uma mudança importante no comportamento dos turistas LGBT+ brasileiros. Mais da metade dos entrevistados (55%) afirma tomar mais cuidados hoje do que fazia alguns anos atrás.
Entre as estratégias mais frequentes estão compartilhar localização em tempo real com amigos ou familiares, utilizar ferramentas de proteção digital, evitar demonstrações públicas de afeto e até excluir aplicativos de relacionamento antes de cruzar determinadas fronteiras.
Outro dado significativo mostra que 54% observam o ambiente ao redor antes de demonstrar afeto a parceiros em espaços públicos.
Especialistas em turismo apontam que esse comportamento não está necessariamente relacionado a experiências negativas anteriores. Muitas vezes ele decorre da percepção de risco construída por notícias, relatos de outros viajantes e avaliações compartilhadas em plataformas digitais.
Nos últimos anos, redes sociais e fóruns de viagem passaram a desempenhar papel central na troca de informações sobre destinos considerados seguros ou problemáticos para turistas LGBT+.
Viajantes trans enfrentam obstáculos específicos
Entre todos os grupos pesquisados, pessoas trans aparecem como as mais impactadas pela ansiedade relacionada às viagens.
Globalmente, 43% dos viajantes trans afirmam sentir mais preocupação ao viajar atualmente, percentual superior à média de 27% observada entre viajantes LGBT+ em geral.
A principal preocupação não está ligada a aeroportos ou hospedagens, mas ao uso de espaços segregados por gênero, como banheiros, vestiários e áreas de troca de roupa.
Nos últimos anos, debates políticos e culturais envolvendo identidade de gênero ganharam destaque em diversos países, influenciando diretamente a percepção de segurança desse público.
Organizações internacionais de direitos humanos vêm alertando que mudanças legislativas em determinadas regiões podem impactar tanto residentes quanto turistas trans, especialmente em viagens internacionais.
Para profissionais do setor de turismo, essa realidade reforça a necessidade de treinamento de equipes, revisão de protocolos de atendimento e adaptação de espaços físicos.
Apesar dos desafios apontados pela pesquisa, os resultados também mostram avanços.
No Brasil, 89% dos entrevistados afirmam ter vivido ao menos uma experiência positiva relacionada à sua identidade de gênero ou orientação sexual durante viagens realizadas no último ano.
Entre os fatores mais valorizados aparecem funcionários LGBT+, uso correto de pronomes, banheiros neutros e sinais visíveis de acolhimento.
Esses elementos vêm ganhando importância dentro do mercado turístico global. Segundo análises da International LGBTQ+ Travel Association, viajantes LGBT+ tendem a valorizar informações claras sobre inclusão e políticas de respeito à diversidade antes mesmo da reserva.
A presença de selos de hospitalidade inclusiva, treinamentos específicos para equipes e políticas transparentes de acolhimento passou a integrar a estratégia de hotéis, operadoras e destinos turísticos em diferentes regiões do mundo.
O crescimento desse movimento também acompanha a expansão econômica do segmento. Estudos do setor indicam que viajantes LGBT+ costumam apresentar alta frequência de viagens e forte influência na escolha de destinos urbanos, culturais e gastronômicos.
Inteligência artificial ganha espaço no planejamento de viagens LGBTQ+
Um dos aspectos mais interessantes do levantamento está relacionado ao uso da inteligência artificial.
Entre os brasileiros entrevistados, 78% utilizaram ferramentas de IA para planejar viagens nos últimos 12 meses.
O dado ajuda a explicar uma tendência observada em todo o mercado turístico: a migração gradual das buscas tradicionais para sistemas conversacionais capazes de fornecer respostas contextualizadas.
Segundo a pesquisa, quase metade dos usuários brasileiros confia na inteligência artificial para obter informações consideradas mais objetivas e menos sujeitas a preconceitos. Outros 45% afirmam que a tecnologia ajuda a descobrir espaços voltados ao público LGBTQ+ que dificilmente apareceriam em buscas convencionais.
Outro dado chama atenção: 37% dizem sentir mais conforto ao fazer perguntas delicadas sobre a cena LGBTQ+ local para uma ferramenta de IA do que para outras pessoas.
O fenômeno acompanha a expansão de plataformas como ChatGPT, Gemini, Perplexity e outros assistentes digitais que vêm se tornando parte da jornada de planejamento turístico.
O turismo LGBTQ+ continua crescendo, mas segurança ainda pesa na decisão
Os resultados da pesquisa reforçam uma realidade frequentemente ignorada pelos indicadores econômicos do turismo.
Embora o turismo LGBTQ+ represente um dos segmentos mais relevantes da indústria global de viagens, questões ligadas à segurança continuam influenciando escolhas, comportamentos e experiências.
Ao mesmo tempo, o avanço de políticas inclusivas, treinamentos especializados, certificações de hospitalidade e ferramentas digitais indica uma transformação gradual do setor.
Para muitos viajantes, a escolha de um destino deixou de depender apenas de paisagens, atrações ou preços. Hoje, a possibilidade de circular com tranquilidade e autenticidade passou a ser um dos critérios centrais na construção da experiência turística.


