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Les Étoiles: a dupla LGBT brasileira que levou a bossa nova à Europa

Muito antes de a diversidade ganhar espaço na indústria musical, dois artistas brasileiros negros e LGBT conquistaram a França cantando bossa nova, samba e MPB. Sua história ainda é pouco conhecida no Brasil.

Les Étoiles: a dupla LGBT brasileira que levou a bossa nova à Europa

Enquanto nomes como João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes se tornaram símbolos internacionais da bossa nova, outra história permaneceu praticamente invisível para o público brasileiro.

Trata-se de Les Étoiles, dupla formada pelos cantores Luiz Antônio e Rolando Faria, dois artistas negros e LGBT que construíram uma carreira de sucesso na Europa durante as décadas de 1970 e 1980. Com figurinos brilhantes, maquiagem, performances sofisticadas e um repertório baseado em samba, MPB e bossa nova, eles desafiaram convenções estéticas muito antes de a representatividade LGBT+ ganhar espaço na indústria musical.

Hoje, Les Étoiles é reconhecido por pesquisadores da música brasileira como um capítulo importante — e ainda pouco explorado — da presença cultural do Brasil no exterior.

Como nasceu Les Étoiles

A dupla surgiu em 1974, em Barcelona, na Espanha. Ambos haviam deixado o Brasil em um período marcado pela ditadura militar e por um ambiente pouco receptivo à liberdade artística e sexual.

Pouco depois seguiram para Paris, onde encontraram um público disposto a descobrir a música brasileira além dos grandes nomes já conhecidos internacionalmente.

Inicialmente apresentados como Rolando & Luiz Antônio, adotaram depois o nome Les Étoiles (“As Estrelas”), consolidando uma identidade artística que misturava elegância, teatralidade e referências da cena disco europeia.

O visual chamava atenção. Purpurina, roupas sofisticadas e maquiagem faziam parte do espetáculo, mas o foco permanecia na qualidade musical e nas harmonias vocais inspiradas na tradição da MPB.

Bossa nova, samba e MPB conquistaram a França

Embora frequentemente lembrados pelo figurino, Les Étoiles construiu sua reputação principalmente pela interpretação refinada da música brasileira.

O repertório incluía composições de grandes autores nacionais, aproximando o público europeu da riqueza da MPB em um momento em que o interesse pela cultura brasileira crescia após o auge internacional da bossa nova.

A dupla participou de programas de televisão franceses, realizou turnês e abriu apresentações do cantor e compositor francês Claude Nougaro. Também esteve presente no popular programa Made in France, apresentado pela cantora France Gall, ampliando sua visibilidade junto ao público europeu.

Entre os principais álbuns estão:

Uma dupla LGBT muito antes da representatividade ganhar espaço

Hoje é comum encontrar artistas LGBT ocupando festivais, premiações e grandes gravadoras. Nos anos 1970, entretanto, a realidade era bastante diferente.

Les Étoiles assumia uma estética queer em plena Europa da década de 1970, período em que a homossexualidade ainda enfrentava forte estigma social e jurídico em diversos países.

A dupla nunca transformou sua orientação sexual em estratégia comercial. Sua presença em cena, contudo, desafiava padrões de gênero ao combinar maquiagem, brilho, figurinos glamourosos e uma interpretação sofisticada da música brasileira.

Pesquisadores contemporâneos apontam que essa trajetória ajuda a compreender a presença histórica de artistas LGBTQIA+ brasileiros no exterior muito antes da atual geração representada por nomes como Liniker e Jup do Bairro.

Por que Les Étoiles permaneceu quase desconhecido no Brasil?

Apesar do reconhecimento na França, Les Étoiles teve circulação limitada no mercado brasileiro.Grande parte da carreira aconteceu na Europa, onde existia maior abertura para apresentações em teatros, televisão e casas de espetáculo dedicadas à música internacional.

Ao mesmo tempo, o Brasil vivia os últimos anos da ditadura militar, período em que artistas considerados “fora do padrão” encontravam dificuldades adicionais para obter espaço na mídia.

Outro fator foi a ausência de reedições nacionais de seus discos e de políticas consistentes de preservação da memória da música popular brasileira. Como resultado, boa parte de sua discografia permaneceu restrita ao mercado europeu durante décadas.

O resgate da memória cultural brasileira

Nos últimos anos, pesquisadores, jornalistas e produtores culturais passaram a recuperar a trajetória de Les Étoiles. O interesse acompanha uma revisão mais ampla da história da música brasileira, que busca incluir artistas negros, LGBTQIA+ e personagens historicamente invisibilizados.

Além de pesquisas acadêmicas, novos projetos culturais procuram preservar gravações, documentos e relatos sobre a dupla, permitindo que novas gerações conheçam um capítulo importante da internacionalização da MPB.

Esse movimento ajuda a ampliar a compreensão sobre como a música brasileira circulou pelo mundo e como artistas LGBT contribuíram para essa história muito antes de a representatividade se tornar pauta permanente na indústria cultural.

A história de Les Étoiles revela que a presença LGBT na música brasileira internacional não começou nas últimas décadas. Ainda nos anos 1970, Luiz Antônio e Rolando Faria abriram espaço na Europa com talento, repertório sofisticado e uma identidade artística que rompia padrões sem abandonar a essência da MPB.

Resgatar sua trajetória significa reconhecer uma parte pouco lembrada da cultura brasileira. Também ajuda a compreender como artistas negros e LGBT contribuíram para difundir a bossa nova, o samba e a música popular brasileira muito além das fronteiras nacionais.

Ricardo Hida
Ricardo Hida
Ricardo Hida, PhD, é jornalista, trend setter e aficionado por mitologia, moda e viagens. Pesquisador na PUC-SP em estudos de gênero. Apresentador na 95,7 FM em São Paulo e sócio da Promonde. Autor de coautor de 11 livros. Desde 2003 trabalha com turismo LGBT.

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