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Crítica de Apenas Coisas Boas: desejo, silêncio e um faroeste queer brasileiro

Antes de qualquer avaliação estética, assistir a Apenas Coisas Boas é também reconhecer a importância do cinema LGBT+ brasileiro. Daniel Nolasco entrega um filme de imagens marcantes, sensualidade integrada à narrativa e uma história que permanece na memória.


Crítica de Apenas Coisas Boas: um cinema LGBT+ que merece ser visto e debatido

Antes de qualquer análise técnica, existe uma questão que merece destaque: é preciso apoiar o cinema LGBT+ brasileiro. Em um mercado dominado por grandes produções internacionais e por dificuldades históricas de financiamento, filmes independentes que colocam personagens LGBTQIA+ no centro da narrativa ajudam a ampliar repertórios, estimular novos realizadores e construir memória cultural.

Isso não significa abrir mão do olhar crítico. Pelo contrário. Valorizar uma obra passa justamente por analisá-la com honestidade.

Dirigido por Daniel Nolasco, Apenas Coisas Boas estreou nos cinemas brasileiros em 25 de junho de 2026, após passagem pelo circuito de festivais onde foi muito bem recebido. Ambientado no interior de Goiás durante a década de 1980, mais precisamente em 1984, o longa acompanha o encontro entre o fazendeiro Antônio e o motociclista Marcelo, transformando uma história de desejo em um drama que dialoga com repressão, masculinidade, violência e afeto.

Um faroeste queer construído pela imagem

Daniel Nolasco já havia demonstrado em trabalhos anteriores interesse por arquétipos masculinos e pela ressignificação de símbolos tradicionalmente associados ao universo heteronormativo. Em Apenas Coisas Boas, essa proposta alcança um refinamento visual raro no cinema brasileiro recente.

A fotografia é um dos maiores trunfos da produção.

Os enquadramentos exploram a paisagem rural de Goiás sem recorrer ao cartão-postal. O horizonte aberto, as estradas de terra, a luz quente do cerrado e os silêncios compõem uma atmosfera elegante e contemplativa que sustenta a narrativa mesmo quando os diálogos praticamente desaparecem.

Existe um cuidado evidente na composição dos planos. Muitas cenas funcionam quase como fotografias, reforçando a sensação de isolamento dos personagens e a intensidade do desejo que cresce entre eles.

Essa construção visual aproxima o filme de um faroeste contemporâneo, mas filtrado por uma perspectiva queer que questiona os modelos tradicionais de masculinidade. Críticos também observaram essa apropriação consciente de ícones como o cowboy e o motociclista para construir um imaginário homoafetivo próprio.

As cenas de sexo têm função dramática

Um dos aspectos que provavelmente despertará mais comentários é a presença de cenas de sexo bastante explícitas.

No entanto, quem espera erotismo gratuito encontrará outra proposta.

O desejo é um elemento estrutural da narrativa. As cenas íntimas ajudam a revelar vulnerabilidades, silenciam conflitos internos e aprofundam a relação entre Antônio e Marcelo. Elas nunca interrompem a história; fazem a história avançar.

Daniel Nolasco trabalha o erotismo como linguagem cinematográfica, sem recorrer ao choque fácil ou à provocação vazia. O corpo masculino viril é apresentado como espaço de afeto, descoberta, transformação e até fragilidade.

Em tempos nos quais personagens LGBT+ ainda costumam ser reduzidos a estereótipos ou relações superficiais, essa naturalidade representa um avanço importante.

Uma trilha sonora que acompanha o silêncio

Outro destaque está na trilha sonora.

Em vez de conduzir emocionalmente o espectador de maneira insistente, a música surge nos momentos certos, respeitando os longos intervalos de silêncio que caracterizam o filme.

O resultado é uma experiência bastante sensorial. Nada de sertanejo a la Vila Country. Até canções em francês são apresentadas, de forma imprevista mas nem por isso invasiva. Tudo combina.

O som da natureza, do vento, dos animais e da estrada ganha protagonismo, fazendo com que a trilha dialogue diretamente com a fotografia. Quando a música aparece, ela amplia a emoção sem se tornar invasiva.

Essa economia sonora ajuda a criar um ritmo próprio, que exige disponibilidade do espectador, mas recompensa quem aceita entrar nesse universo.

O elenco encontra em Renata Carvalho e Lucas Drummond seus maiores destaques. Renata, carismática, entrega uma atuação de enorme presença cênica, equilibrando força, sensibilidade e humanidade sem recorrer a excessos. Sua personagem ganha densidade a cada aparição e permanece na memória mesmo após o término do filme, trazendo momentos de risos nervosos. Já Lucas Drummond confirma a maturidade artística que vem demonstrando em trabalhos recentes. Seu Antônio é construído com delicadeza, sensualidade e contenção, transmitindo emoções muitas vezes apenas pelo olhar e pelos silêncios. A química entre os dois protagonistas jovens sustenta grande parte da força dramática da narrativa e torna crível a relação que move o filme, apesar de certos recursos fantasiosos que trazem originalidade a obra.

Nem tudo funciona da mesma maneira

Mesmo com tantas qualidades, Apenas Coisas Boas apresenta alguns pontos que poderiam ser mais consistentes.

O primeiro deles está na captação de áudio. Em determinados momentos, especialmente em cenas externas, a compreensão das falas se torna difícil. Trata-se de um aspecto técnico que interfere na experiência e quebra parte da imersão construída pela fotografia e pelo desenho visual.

Outro ponto menos convincente é a atuação de Fernando Libonati. Embora o elenco como um todo mantenha coerência com a proposta minimalista do diretor, sua composição parece menos natural em comparação aos demais atores. Em algumas sequências, a interpretação perde intensidade emocional justamente quando a narrativa exige maior carga dramática. Pareceu-me intencional o olhar de tédio, mas não funcionou.

Felizmente, essas limitações não comprometem o conjunto da obra que merece ser vista.

Um filme que amplia o repertório do cinema brasileiro

Apenas Coisas Boas não é um filme preocupado em agradar todos os públicos. Muito longe disso. Não espere a versão brazuca de Brokeback Mountain. A obra de Nolasco é muito mais original e provocativa na sua abordagem.

Seu ritmo contemplativo, os silêncios prolongados e a narrativa que mistura romance, mistério e simbolismo certamente dividirão opiniões.

Mas justamente aí reside sua força.

Daniel Nolasco demonstra confiança em uma linguagem autoral que evita explicar tudo ao espectador. O filme prefere sugerir, provocar e construir significados pela imagem.

Em um momento em que boa parte das produções busca acelerar o ritmo para atender ao consumo imediato das plataformas digitais, essa opção estética merece reconhecimento.

Mais importante ainda é perceber que o longa amplia o espaço do cinema LGBT+ brasileiro ao apresentar personagens complexos, distantes tanto da caricatura quanto do discurso panfletário.

Vá assistir sem medo

Apenas Coisas Boas confirma Daniel Nolasco como um dos realizadores brasileiros mais interessados em investigar desejo, masculinidade e identidade por meio de uma linguagem visual sofisticada.

A fotografia é belíssima, a trilha sonora reforça a atmosfera contemplativa e as cenas de sexo cumprem papel narrativo fundamental, integradas à construção emocional dos personagens.

Antes de tudo, trata-se de um filme que merece ser visto porque amplia o espaço de histórias LGBT+ no cinema nacional. E, depois da sessão, oferece material suficiente para reflexão — exatamente o tipo de obra que continua ecoando quando as luzes da sala se acendem.

Ricardo Hida
Ricardo Hida
Ricardo Hida, PhD, é jornalista, trend setter e aficionado por mitologia, moda e viagens. Pesquisador na PUC-SP em estudos de gênero. Apresentador na 95,7 FM em São Paulo e sócio da Promonde. Autor de coautor de 11 livros. Desde 2003 trabalha com turismo LGBT.

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