Com estreia em 14 de agosto na Fashion TV, produção acompanha o processo criativo de artistas drag do Norte e Nordeste e destaca linguagens que unem performance, moda, música, teatro e cultura LGBT+.
A cena drag brasileira ganhou projeção nacional nos últimos anos com realities, festivais e a presença crescente de artistas na música, no teatro e na televisão. Ainda assim, boa parte dessa visibilidade permanece concentrada no eixo Rio-São Paulo. A série documental Drag Ataque nasce justamente para deslocar esse olhar. A partir de 14 de agosto, às 21h, a Fashion TV exibe semanalmente 12 episódios dedicados às drag queens do Norte e Nordeste, revelando seus processos criativos, trajetórias e diferentes formas de expressão artística.
Dirigida por Vinícius Gouveia e produzida pela Plano 9, a série acompanha artistas que transformam maquiagem, figurino, dança, música, atuação, circo e performance em linguagem artística. Em vez de apostar no formato competitivo que marcou produções recentes sobre cultura drag, o documentário prefere acompanhar os bastidores da criação, aproximando o público das pessoas por trás das montações.
Drag Ataque amplia o retrato da cultura drag brasileira
Nos últimos anos, programas como Caravana das Drags ajudaram a ampliar a presença das drag queens na televisão e no streaming. Entretanto, a diversidade regional da cena brasileira continua pouco conhecida pelo grande público.
É justamente nesse espaço que Drag Ataque encontra sua identidade. A produção apresenta artistas de estados como Pernambuco, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte e Pará, mostrando como diferentes referências culturais atravessam suas performances.
Cada episódio reúne duas drag queens com trajetórias distintas que recebem um desafio relacionado às suas habilidades. Algumas trabalham com figurino, outras vêm da música, da maquiagem, da dança ou do teatro. O resultado não é uma competição, mas um encontro entre linguagens e gerações.
Entre os nomes presentes na temporada estão Ruby Nox, Potyguara Bardo, Aimée Lumière, Safira Blue, Sharlene Esse e diversas artistas convidadas que representam diferentes momentos da cena drag brasileira.
Bastidores mostram a criação antes do palco
O diferencial da série está no acompanhamento do processo criativo. O espectador acompanha desde a pesquisa estética, os ensaios, a confecção de figurinos e a preparação da maquiagem até o momento em que cada performance encontra o público.
No episódio de estreia, por exemplo, Charlotte Delfina, formada em Vestuário, e Joanne Versace, autodidata da costura, precisam desenvolver figurinos inéditos em poucos dias utilizando orçamento limitado. A estreia das peças acontece na histórica Boate Metrópole, no Recife, um dos espaços mais importantes da vida noturna LGBT+ brasileira.
Ao longo da temporada, o documentário percorre diferentes linguagens artísticas.
Há episódios dedicados à música, nos quais Carmen Camaleonte e Karmaleoa compõem canções inéditas; à maquiagem, com Aimée Lumière e Nina Poison; à dança inspirada no passinho; ao teatro; ao circo; ao voguing realizado nas ruas do Recife Antigo; e aos bastidores da produção de videoclipes.
Essa estrutura faz com que cada episódio tenha identidade própria, evitando a repetição típica de séries documentais seriadas.
Norte e Nordeste aparecem como centros de criação cultural
Um dos aspectos mais interessantes de Drag Ataque é a escolha de tratar Norte e Nordeste não como cenário exótico, mas como polos de produção artística.
As performances dialogam com ritmos como brega, brega funk, tecnobrega, axé e diferentes manifestações culturais regionais. Também aparecem espaços conhecidos da vida noturna, teatros, bares e ruas onde essas artistas efetivamente constroem suas carreiras.
Ao registrar esses ambientes, a série também documenta parte da memória recente da cultura LGBT+ brasileira, especialmente em cidades onde a cena independente ocupa papel importante na formação de novos artistas.
Essa abordagem aproxima o documentário de produções contemporâneas que enxergam a cultura queer como patrimônio cultural vivo e não apenas como entretenimento.
A arte drag vai além da performance
Embora o glamour esteja presente, a série dedica boa parte do tempo às conversas sobre trabalho, sobrevivência financeira, autoestima e construção de identidade.
As histórias mostram artistas que conciliam diferentes profissões com a carreira drag. Algumas atuam como costureiras, maquiadoras ou produtoras culturais. Outras trabalham com música, educação ou artes cênicas.
O diretor Vinícius Gouveia define a produção como “a realidade drag”, justamente por evitar a lógica de um reality show tradicional e privilegiar a observação documental. Segundo ele, o interesse está no contraste entre os bastidores, marcados por preparação intensa, e o palco, onde essas artistas transformam seus corpos em linguagem artística.
Essa perspectiva amplia a compreensão sobre a cultura drag e evidencia seu diálogo com moda, teatro, performance, música e artes visuais.
Como assistir a Drag Ataque
A primeira temporada terá 12 episódios, exibidos semanalmente pela Fashion TV a partir de 14 de agosto, sempre às 21 horas.
O projeto foi produzido pela Plano 9 e recebeu financiamento público por meio da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), BRDE, Funcultura de Pernambuco, Fundarpe e da Política Nacional Aldir Blanc em Pernambuco.
A exibição acontece na Fashion TV Brasil, canal especializado em moda, comportamento e produções audiovisuais nacionais independentes, administrado pela Box Brazil.
Episódio 1 – Drag Costura
Entre tecidos e pechinchas no Mercadão do Recife, Charlotte Delfina e Joanne Versace criam looks icônicos para um desfile de moda drag com os conselhos de Danni Bodega.
Episódio 2 – DRAG CANTA
Carmen Camaleonte e Karmaleoa compõem a letra de um brega funk. Elas contam com a sabedoria drag de Potyguara Bardo para a estreia ao vivo, no gogó, na boate Metrópole.
Episódio 3 – DRAG MAQUIA
Encontro improvável de Aimée Lumière e Nina Poison para experimentações de maquiagem numa sessão de fotos servindo muito carão, com a ajuda de Alma Negrot.
Episódio 4 – DRAG DE BOATE
Para provar todo o seu talento no lipsync, as drag queens sobem ao palco da icônica boate Metrópole ao som de músicas nordestinas de diferentes estilos.
Episódio 5 – DRAG DANÇA
Saphyra Luz e Desirée Lo Bianco recebem as dicas do coreógrafo de brega funk Newton César para uma performance de dança autoral com ritmo e atitude do passinho.
Episódio 6 – DRAG ATUA
A jovem Condessa Cabalista se une à sexagenária Sharlene Esse para preparar cenas de comédia e drama, sob a orientação do diretor e professor Marcondes Lima.
Episódio 7 – DRAG NO CLIPE
Carmen Camaleonte e Karmaleoa retornam apenas com figurinos, fundo verde e um sonho: transformar suas composições em um videoclipe.
Episódio 8 – DRAG DE BOATE 2
As drag queens convocam as performers Salário Mínimo e Dercy Fortunato para uma noite de performances caricatas e irreverentes no Loba Pub.
Episódio 9 – DRAG NO CIRCO
Ruby Nox se torna a mãe drag da dupla circense Vitor Lima e João Cavalcanti, enquanto aprende com eles truques acrobáticos para levar sua performance a novos ares… no circo!
Episódio 10 – DRAG NA RUA
O bailarino Edson Vogue e a drag queen Nola Criola ocupam as ruas do Recife Antigo com uma performance de voguing em plena luz do dia e frente a um público que nunca viu drags antes.
Episódio 11 – DRAG APRESENTA
Torta na cara Drag, cultura drag queen e os bastidores do Drag Ataque: Ruby Nox e Safira Blue apresentam esse programa metalinguístico sobre o poder da comunicação das drags.
Episódio 12 – DRAG DE FESTA
A produtora e DJ Safira Blue apresenta sua festa mensal. Ela e drags de outras gerações compartilham a força da cultura das baladas na vida de pessoas LGBTQIAPN+.
Uma contribuição para a memória da cultura LGBT+
Em um momento em que artistas drag ocupam espaços cada vez maiores na televisão, na música e na publicidade, Drag Ataque escolhe um caminho diferente: registrar quem produz cultura longe dos grandes centros e mostrar como essas carreiras são construídas no cotidiano.
Ao acompanhar processos criativos, relações comunitárias e apresentações realizadas diante de públicos reais, a série oferece um retrato consistente de uma cena artística que influencia moda, linguagem, música e comportamento há décadas.
Para quem acompanha a cultura LGBT+, trata-se de uma oportunidade de conhecer artistas que raramente aparecem nas produções nacionais de maior alcance, contribuindo para ampliar a diversidade de narrativas sobre a arte drag no Brasil.


