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Violência algorítmica: autoras explicam como a IA pode ampliar desigualdades contra pessoas LGBT+

Livro de Bruna Irineu e Larissa Pelúcio analisa como algoritmos, inteligência artificial e redes sociais influenciam direitos, economia e visibilidade da população LGBT+.

A inteligência artificial deixou de ser assunto restrito às empresas de tecnologia. Ferramentas capazes de escrever textos, criar imagens e recomendar conteúdos passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas, levantando discussões sobre privacidade, transparência e discriminação. Nesse cenário, pesquisadores alertam que algoritmos não são neutros e podem reproduzir desigualdades já existentes na sociedade.

É justamente essa reflexão que orienta Violência algorítmica e vidas LGBTQIAPN+: Ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital, lançado pela Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura (ABETH). Escrito por Bruna Irineu, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e Larissa Pelúcio, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o livro reúne análises sobre inteligência artificial, plataformas digitais, capitalismo de vigilância e direitos da população LGBTQIAPN+, além de um glossário para explicar conceitos como justiça algorítmica, colonialismo de dados e soberania digital.

Em entrevista à Revista ViaG, as pesquisadoras explicam por que a tecnologia pode reforçar preconceitos, quais os impactos para pessoas LGBT+ e como construir um ambiente digital mais democrático. As respostas foram editadas para maior clareza e objetividade.

O que é violência algorítmica?

Bruna Irineu: Quando falamos em violência algorítmica, não estamos tratando de falhas técnicas. É a forma como algoritmos, plataformas, bancos de dados e inteligências artificiais reproduzem desigualdades presentes na sociedade. Esses sistemas são desenvolvidos a partir de dados produzidos em contextos marcados por racismo, misoginia, LGBTfobia e outras formas de discriminação. Assim, quando um conteúdo LGBTQIAPN+ é removido, um perfil perde visibilidade ou discursos de ódio circulam livremente, existe uma dimensão política nessas decisões automatizadas.

O recente bloqueio de perfis LGBTQIA+ no Instagram ajuda a entender o que é violência algorítmica?

Larissa Pelúcio: Sim. Esse foi um exemplo bastante significativo porque mostrou que a violência algorítmica não acontece apenas quando discursos de ódio ganham alcance, mas também quando vozes são retiradas de circulação. Páginas de informação, redes de apoio, perfis de trabalho e iniciativas ligadas à população LGBTQIA+ perderam visibilidade ou foram suspensas, levantando questionamentos sobre os critérios utilizados pelas plataformas. Casos como esse reforçam a necessidade de transparência nos sistemas de moderação e de mecanismos de recurso eficazes para os usuários.

A inteligência artificial pode ampliar preconceitos?

Larissa Pelúcio: Sim. A IA aprende com enormes volumes de informações disponíveis na internet e esses dados carregam preconceitos históricos. Como esses sistemas produzem respostas muito convincentes, existe a falsa impressão de neutralidade. O risco é que vieses racistas, transfóbicos, misóginos ou heteronormativos sejam reproduzidos em escala cada vez maior, tornando a discriminação menos perceptível e mais eficiente.

Por que pessoas LGBTQIAPN+ são particularmente afetadas?

Bruna Irineu: A população LGBTQIAPN+ sempre enfrentou mecanismos de controle social. Nas plataformas digitais isso aparece de novas maneiras: conteúdos considerados “sensíveis”, bloqueio de palavras, redução de alcance, ataques coordenados e vigilância constante. Ao mesmo tempo em que as redes criam espaços de apoio e visibilidade, elas também podem ampliar a exposição à violência e ao monitoramento.

Existe impacto econômico dessa invisibilidade digital?

Larissa Pelúcio: Sem dúvida. Plataformas e mecanismos de busca influenciam diretamente quais negócios aparecem para o público. Quando um perfil perde alcance, anúncios são recusados ou conteúdos deixam de ser recomendados, há impacto sobre renda, clientes e oportunidades. Isso afeta especialmente pequenos empreendedores, artistas, criadores de conteúdo e pessoas trans, que muitas vezes dependem das redes sociais para trabalhar.

O chamado pink money também passa pelos algoritmos?

Bruna Irineu: Hoje, sim. As plataformas identificam comportamentos, segmentam públicos e transformam identidades em mercados consumidores. Existe uma tensão importante: ao mesmo tempo em que a diversidade pode gerar oportunidades econômicas, ela também é convertida em dados para publicidade e monitoramento. Ser reconhecido por uma plataforma nem sempre significa estar protegido por ela.

O que pode ser feito para reduzir a violência algorítmica?

Larissa Pelúcio: Precisamos de transparência sobre como os algoritmos funcionam, auditorias independentes, equipes de moderação capacitadas em direitos humanos e responsabilização das plataformas quando elas lucram com desinformação e discursos de ódio. Também é fundamental investir em educação digital para que as pessoas compreendam que aquilo que aparece em suas telas resulta de decisões técnicas, econômicas e políticas.

Como usuários comuns podem se proteger nas plataformas digitais?

Bruna Irineu: Algumas medidas ajudam a reduzir a exposição, como revisar as configurações de privacidade, utilizar autenticação em dois fatores, fortalecer senhas e refletir sobre as informações compartilhadas nas redes sociais. Mas a responsabilidade não deve recair apenas sobre o usuário. As plataformas precisam oferecer ambientes mais transparentes e seguros, enquanto comunidades podem fortalecer redes de apoio, denunciar ataques coordenados e compartilhar informações confiáveis

Há motivos para otimismo?

Bruna Irineu: Sim. O livro apresenta iniciativas de resistência reunidas sob o conceito de TecnoCuir, que envolve práticas comunitárias, transfeministas, antirracistas e decoloniais voltadas para disputar os rumos da tecnologia. Queremos mostrar que algoritmos não são inevitáveis nem imutáveis. Eles podem ser questionados e transformados por meio da participação social e da defesa dos direitos humanos.

Qual mudança de percepção vocês esperam provocar nos leitores?

Larissa Pelúcio: Esperamos que as pessoas deixem de enxergar a tecnologia como algo neutro ou puramente técnico. Algoritmos participam da distribuição de visibilidade, reconhecimento e oportunidades. Quando compreendemos isso, percebemos que decisões tomadas por plataformas digitais também são decisões políticas. Reconhecer esses mecanismos é o primeiro passo para exigir tecnologias mais transparentes, democráticas e comprometidas com os direitos humanos.


Como acessar o livro

Título: Violência algorítmica e vidas LGBTQIAPN+: Ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital

Autoras: Bruna Irineu e Larissa Pelúcio

Editora: ABETH

ISBN: 978-65-984692-2-1

Páginas: 244

O livro está disponível gratuitamente em formato digital no site da ABETH e também pode ser adquirido para Kindle na Amazon.

Ricardo Hida
Ricardo Hida
Ricardo Hida, PhD, é jornalista, trend setter e aficionado por mitologia, moda e viagens. Pesquisador na PUC-SP em estudos de gênero. Apresentador na 95,7 FM em São Paulo e sócio da Promonde. Autor de coautor de 11 livros. Desde 2003 trabalha com turismo LGBT.

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