Uma rara infecção bacteriana, até então associada principalmente a animais de criação em regiões tropicais e subtropicais, passou a chamar a atenção de autoridades sanitárias e pesquisadores na Europa. Casos registrados na França, Espanha e Alemanha levantam a hipótese de transmissão sexual entre humanos, especialmente entre homens que fazem sexo com homens, reacendendo debates sobre vigilância epidemiológica, prevenção e combate ao estigma.
O alerta ganhou repercussão internacional após estudos publicados na revista científica Emerging Infectious Diseases, ligada aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Pesquisadores relataram um grupo de nove casos identificados entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026 nas cidades francesas de Lyon e Paris. Todos os pacientes eram homens que fazem sexo com homens e não apresentavam histórico de contato com animais infectados, principal forma de transmissão conhecida até então.
A bactéria responsável pela infecção é a Dermatophilus congolensis, causadora da dermatofilose, uma doença cutânea frequentemente encontrada em bovinos, ovinos, caprinos e cavalos. Até recentemente, casos humanos eram considerados extremamente raros e geralmente relacionados ao contato direto com animais contaminados.
Segundo o estudo francês, as lesões surgiram principalmente em áreas do corpo expostas durante relações sexuais, como região genital, tronco, nádegas e rosto. A análise genética das amostras indicou forte semelhança entre os casos, sugerindo uma cadeia recente de transmissão entre pessoas.
Na Espanha, médicos do Hospital Universitário Vall d’Hebron, em Barcelona, identificaram um grupo semelhante de pacientes entre dezembro de 2025 e março de 2026. Os pesquisadores consideram que os casos espanhóis reforçam a hipótese de transmissão sexual e indicam que a bactéria já circula em diferentes redes de contato na Europa.
Embora publicações em redes sociais tenham destacado uma sauna gay em Lyon como possível ponto de exposição, especialistas ressaltam que as investigações ainda analisam múltiplos ambientes e redes de contato. O consenso científico atual aponta para a transmissão por contato próximo pele a pele, especialmente em ambientes quentes e úmidos, e não para um único estabelecimento específico.
Os sintomas observados até agora incluem:
- Pequenas pápulas e pústulas na pele;
- Lesões avermelhadas;
- Coceira em alguns pacientes;
- Erupções na região genital, tronco, barba e nádegas.
Até o momento, todos os casos descritos foram considerados leves. Muitos pacientes apresentaram melhora espontânea ou responderam bem ao tratamento com antibióticos. Não foram registrados quadros graves ou mortes relacionadas à infecção.
O tema surge em um momento de preocupação crescente com o aumento das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) na Europa. Dados recentes do European Centre for Disease Prevention and Control mostram crescimento expressivo de sífilis, gonorreia e outras ISTs no continente nos últimos anos.
Especialistas também lembram que surtos anteriores, como a mpox em 2022, demonstraram a importância de respostas rápidas baseadas em informação científica e sem reforçar preconceitos contra grupos específicos.
Para turistas LGBT+ que frequentam destinos como Lyon, Paris, Barcelona, Berlim e outros grandes centros europeus, as recomendações seguem as mesmas orientações adotadas para outras ISTs e infecções transmissíveis por contato próximo:
- Manter boa higiene pessoal;
- Procurar atendimento médico diante de lesões cutâneas incomuns;
- Realizar exames regulares de saúde sexual;
- Informar parceiros em caso de diagnóstico;
- Buscar fontes oficiais de informação e evitar conteúdos alarmistas.
As autoridades sanitárias europeias avaliam que o risco para a população em geral permanece baixo. No entanto, a descoberta reforça a necessidade de monitoramento contínuo de novas doenças que podem emergir em redes de contato internacionalizadas, especialmente em um continente que recebe milhões de turistas todos os anos.


