Poucas figuras da história britânica parecem tão contemporâneas quanto Henry Paget. Nascido em 1875 e herdeiro de uma das maiores fortunas da aristocracia do Reino Unido, ele viveu apenas 29 anos, mas deixou uma trajetória tão extravagante que hoje inspira peças de teatro, estudos acadêmicos e, agora, um filme que promete conquistar o público interessado em histórias LGBT+, moda, cultura e personagens que desafiaram seu tempo.
O longa-metragem Madfabulous, dirigido por Celyn Jones e estrelado por Callum Scott Howells, teve estreia mundial no festival BFI Flare e chegou aos cinemas britânicos em junho de 2026. A produção apresenta a vida do chamado “Marquês Dançarino”, um aristocrata que gastou uma fortuna em figurinos, joias, espetáculos teatrais e performances que desafiavam os rígidos padrões de gênero da sociedade vitoriana.
Embora os conceitos modernos de identidade LGBT+ não existissem no final do século XIX, Henry Paget tornou-se uma figura frequentemente associada à história queer britânica. Seus hábitos extravagantes, sua paixão por figurinos considerados femininos para a época e um casamento que nunca teria sido consumado alimentaram especulações sobre sua sexualidade e identidade ao longo das décadas.
Em uma sociedade marcada pelo conservadorismo e pela repressão — o mesmo período em que Oscar Wilde foi condenado por sua homossexualidade — Paget transformou sua própria vida em espetáculo. Ele adaptou uma capela familiar em teatro particular, organizou produções luxuosas e realizava apresentações usando roupas inspiradas na alta-costura parisiense, além de sua famosa “Butterfly Dance”, que se tornou uma marca registrada.
Ao herdar o título de Marquês de Anglesey, Henry passou a controlar uma imensa fortuna e vastas propriedades. Em poucos anos, porém, sua obsessão por luxo, arte e entretenimento consumiu praticamente todo o patrimônio familiar. Historiadores relatam gastos milionários com joias, roupas, automóveis e produções teatrais grandiosas.
A situação financeira tornou-se insustentável. Endividado, ele foi declarado falido em 1904 e viu boa parte de seus bens ser leiloada para pagar credores. No ano seguinte, morreu em Mônaco, aos 29 anos. Após sua morte, familiares destruíram parte significativa de seus documentos pessoais, contribuindo para que sua história permanecesse esquecida durante décadas.
O interesse contemporâneo por Henry Paget não é por acaso. Pesquisadores e artistas frequentemente o descrevem como uma figura que antecipou discussões atuais sobre expressão de gênero, celebridade e performance. Em diferentes momentos, sua imagem já foi comparada à de ícones como David Bowie e Freddie Mercury.
O diretor Celyn Jones afirmou em entrevistas que ficou impressionado ao descobrir fotografias de Paget usando trajes exuberantes em plena década de 1890. Para ele, o aristocrata parecia mais próximo de uma estrela do glam rock do século XX do que de um nobre vitoriano.
A produção mistura drama histórico, humor e estética extravagante para contar uma história que, embora pouco conhecida fora do Reino Unido, dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre autenticidade e liberdade de expressão. A crítica britânica destacou a interpretação de Callum Scott Howells e o visual exuberante do filme, que recria o universo de excessos construído por Henry Paget.
Para o público LGBT+, Madfabulous surge como mais uma oportunidade de revisitar personagens históricos que desafiaram normas sociais muito antes dos movimentos de direitos civis do século XX. Mais do que um retrato de riqueza e extravagância, o filme recupera a memória de uma figura que se recusou a viver dentro das convenções impostas por sua época.
Até o momento, Madfabulous não teve lançamento confirmado nos cinemas brasileiros nem nas principais plataformas de streaming do país.


