Últimos Posts

Fafá de Belém, o Musical emociona São Paulo e desperta vontade de conhecer Belém

Em cartaz no Teatro Claro+, o espetáculo percorre cinco décadas da carreira de Fafá de Belém com dramaturgia consistente, direção precisa, figurinos marcantes e um olhar afetuoso sobre a Amazônia e a cultura paraense.

Há musicais biográficos que se limitam a organizar sucessos em ordem cronológica. “Fafá de Belém, o Musical” segue outro caminho. Em cartaz em São Paulo, a montagem transforma a trajetória da cantora paraense em uma narrativa sobre memória, identidade, política, religiosidade popular e pertencimento. Ao final das quase três horas de espetáculo, fica uma sensação curiosa: a vontade de abrir o Spotify, revisitar toda a discografia de Fafá e começar a planejar uma viagem para conhecer Belém do Pará.

Essa talvez seja a maior virtude da produção idealizada por Jô Santana. Ela apresenta uma artista já conhecida do público brasileiro, mas amplia o olhar sobre suas origens, seu repertório e seu papel na cultura nacional. O resultado é um musical que dialoga tanto com admiradores de longa data quanto com espectadores que conhecem apenas alguns sucessos da cantora. A proposta também tem potencial para despertar interesse turístico pela capital paraense, cuja presença atravessa praticamente toda a encenação.

A direção encontra equilíbrio entre espetáculo e intimidade

Sob direção artística de Gustavo Gasparani, que também assina o texto ao lado de Eduardo Rieche, o musical evita transformar a biografia em uma simples sequência de acontecimentos históricos. A dramaturgia constrói três tempos narrativos que se cruzam constantemente: a infância em Belém, a consolidação da carreira e a gravação de um documentário sobre seus 50 anos de trajetória.

Essa estrutura permite que lembranças, lendas amazônicas, acontecimentos políticos e momentos musicais convivam naturalmente. Em vez de explicar cada fase da vida da cantora, a direção prefere sugerir emoções e construir atmosferas.

A fluidez impressiona. Mesmo com cerca de 160 minutos de duração, a montagem mantém ritmo constante. As transições entre cenas são elegantes, os números musicais surgem organicamente e praticamente não há momentos em que a narrativa perca força. Diversos críticos destacaram justamente essa qualidade, apontando a direção de Gasparani como um dos principais pilares do espetáculo.

O roteiro transforma Belém em personagem

Talvez a decisão dramatúrgica mais interessante seja colocar Belém no centro da história.

A cidade não aparece apenas como local de nascimento de Fafá. Ela influencia a narrativa através das lendas amazônicas, do Círio de Nazaré, do Teatro da Paz, do carimbó, da cultura cabocla e das referências indígenas e ribeirinhas.

Essa opção impede que o espetáculo se transforme em uma homenagem exclusivamente individual. Ao acompanhar a trajetória da cantora, o público conhece também parte da identidade cultural do Pará.

O primeiro ato mergulha nesse universo com referências ao boto, à Cobra Grande, ao Tamba-Tajá e às manifestações religiosas populares. O segundo acompanha uma artista já consolidada, participante das Diretas Já, reconhecida em Portugal e profundamente ligada à comunidade LGBT+, sem perder o vínculo com suas raízes amazônicas.

Figurinos, cenografia e iluminação criam imagens memoráveis

Visualmente, “Fafá de Belém, o Musical” impressiona.

O figurino assinado por Claudio Tovar acompanha as diferentes fases da cantora sem recorrer à caricatura. Há mudanças de época, referências amazônicas, momentos de glamour e cenas inspiradas em grandes apresentações da carreira de Fafá.

A cenografia de Ronald Teixeira utiliza poucos elementos para construir espaços muito distintos, transitando da floresta amazônica ao Teatro da Paz, das manifestações pelas Diretas Já ao universo pop contemporâneo.

A iluminação reforça essa transformação constante, criando ambientes intimistas nas cenas familiares e grande impacto visual nos números musicais.

O resultado demonstra cuidado estético em todos os departamentos técnicos, algo frequentemente ressaltado por veículos especializados que acompanharam a estreia da produção.

A relação de Fafá com o público LGBT+ ganha espaço sem artificialidade

Um dos momentos mais divertidos da montagem chega quando o espetáculo homenageia a longa relação entre Fafá de Belém e o público LGBT+.

A sequência conduzida por drag queens surge naturalmente dentro da narrativa, lembrando o apoio histórico da cantora à comunidade e sua presença constante em eventos, boates e ações ligadas à cultura LGBT+.

Quem acompanha sua trajetória reconhece diversas referências. Desde apresentações em Paradas do Orgulho até a participação recente no clipe “Meu Coração é Brega”, gravado no Buraco da Lacraia e com coletivos drag, Fafá construiu uma relação consistente com esse público ao longo de décadas — algo que o musical incorpora sem transformar esse aspecto em mera estratégia narrativa.

Entre os momentos mais simbólicos está a homenagem à Festa da Chiquita, manifestação cultural realizada desde 1977 na noite que antecede o Círio de Nazaré. Nascida como um encontro espontâneo da comunidade LGBT+, a celebração tornou-se patrimônio afetivo de Belém e um dos eventos paralelos mais conhecidos da maior procissão católica do Brasil. Ao incorporar essa referência, o musical reconhece um capítulo importante da história cultural paraense, mostrando como religiosidade popular, música e diversidade convivem em uma mesma cidade. A cena reforça a ligação de Fafá de Belém com a comunidade LGBT+, construída ao longo de décadas, sem recorrer a estereótipos ou discursos panfletários.

Para os leitores da Revista ViaG, essa passagem possui significado especial. Ela reforça uma parceria construída ao longo de muitos anos e evidencia como artistas populares ajudaram a ampliar espaços de visibilidade para a comunidade LGBT+ brasileira.

Um musical que desperta curiosidade pela música e pelo destino

Existe um efeito interessante quando as luzes se acendem.

Você sai do teatro querendo ouvir novamente “Sob Medida”, “Foi Assim”, “Abandonada”, “Bilhete”, “Vermelho”, “Nuvens de Lágrimas”, “Pauapixuna”, “Meu Homem” e tantas outras canções que atravessam a montagem.

Ao mesmo tempo, cresce a curiosidade por conhecer Belém além das manchetes sobre gastronomia ou da proximidade da COP30. O musical mostra uma cidade moldada por rios, tradições populares, religiosidade, música e encontros culturais.

É difícil terminar a sessão sem imaginar uma caminhada pelo Ver-o-Peso, uma visita ao Teatro da Paz, um passeio pelas ilhas da baía do Guajará ou uma experiência durante o Círio de Nazaré.

Esse talvez seja o maior elogio que se pode fazer ao espetáculo: ele amplia repertórios. Faz redescobrir uma artista e desperta interesse genuíno por um dos centros culturais mais ricos do Brasil.

Em tempos em que muitos musicais biográficos apostam exclusivamente na nostalgia, “Fafá de Belém, o Musical” consegue algo diferente. Ele convida o público a olhar para frente, revisitar uma discografia inteira e, quem sabe, comprar uma passagem para Belém.

Ricardo Hida
Ricardo Hida
Ricardo Hida, PhD, é jornalista, trend setter e aficionado por mitologia, moda e viagens. Pesquisador na PUC-SP em estudos de gênero. Apresentador na 95,7 FM em São Paulo e sócio da Promonde. Autor de coautor de 11 livros. Desde 2003 trabalha com turismo LGBT.

Latest Posts

Cadastre-se e receba a nossa newsletter

Mais Lidas