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Dia Nacional do Orgulho Lésbico: do Ferro’s Bar às redes sociaisStonewall brasileiro

Uma história do orgulho lésbico: do Ferro’s Bar às plataformas digitais

Neste 19 de agosto, Dia Nacional do Orgulho Lésbico, professora e pesquisadora resgata o “Stonewall brasileiro” e reflete sobre as disputas por visibilidade que permanecem até hoje

*Por: Bruna Andrade Irineu 

As disputas por visibilidade são também disputas pelos meios de circulação da informação. Para movimentos sociais protagonizados por grupos historicamente discriminados, preservar e ativar a memória não constitui apenas uma forma de reconhecimento do passado. Trata-se, igualmente, de uma estratégia política para recuperar experiências de resistência, disputar narrativas, transmitir saberes e reivindicar presença no espaço público. 

É nesse horizonte que se inscreve o Dia Nacional do Orgulho Lésbico. Em 2003, no bojo das mobilizações desencadeadas pela morte da ativista lésbica Rosely Roth, ganhou força a proposta de instituir a data em reconhecimento à trajetória histórica de organização e resistência política das lésbicas no Brasil. A escolha resultou de um processo coletivo de elaboração da memória política lésbica e remete a um episódio emblemático ocorrido em 19 de agosto de 1983: a ocupação do Ferro’s Bar, em São Paulo, por ativistas lésbicas lideradas por Roth, com o apoio de integrantes de outros movimentos sociais. 

A ocupação ocorreu em protesto contra práticas discriminatórias e agressões lesbofóbicas registradas no estabelecimento nas semanas anteriores. Como relata a historiadora Julia Kumpera em Na noite lésbica: o levante no Ferro’s Bar (Autêntica, 2026), a mobilização esteve diretamente ligada às restrições impostas à circulação do boletim Chanacomchana, publicação produzida pelo Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) e comercializada por suas militantes no local. O periódico desempenhava uma função que ultrapassava a divulgação de informações: tratava-se de um instrumento de organização política, produção de visibilidade e articulação de debates entre mulheres lésbicas. Em suas páginas, circulavam discussões sobre relações afetivo-sexuais entre mulheres, maternidade, direitos sexuais e reprodutivos, legalização do aborto, violência e perseguição policial. 

Por isso, a ocupação não deve ser compreendida apenas como uma resposta à discriminação. Ela foi também uma estratégia deliberada de produção de visibilidade, construção de solidariedades e afirmação da capacidade das lésbicas de intervir na definição dos espaços públicos que frequentavam. Ao defender a livre expressão e a organização política, as ativistas reivindicavam não somente o direito de vender um boletim, mas o reconhecimento das lésbicas como sujeitas políticas e produtoras legítimas de conhecimento, memória e ação coletiva. 

Quarenta e três anos depois, o episódio permanece atual não porque o Ferro’s Bar e as plataformas digitais funcionem de maneira equivalente, mas porque permite observar uma questão que atravessa contextos históricos distintos: quem controla as condições de circulação dos discursos e da informação? Em 1983, a administração do bar funcionava como uma instância local de controle sobre a venda e a circulação do Chanacomchana. Atualmente, parte dessas disputas ocorre em ambientes digitais, nos quais conteúdos podem ser removidos, ter seu alcance reduzido por sistemas automatizados, sofrer desmonetização ou ser classificados como “sensíveis”. Em determinados casos, essas práticas atingem de forma desproporcional conteúdos relacionados às sexualidades e identidades de gênero dissidentes. 

A mudança de espaço modifica os agentes, a escala, as tecnologias e as formas de responsabilização envolvidas. Ainda assim, há continuidades na disputa pelas condições de visibilidade e participação pública. É nesse ponto que o debate sobre violência algorítmica se torna relevante. Com base na discussão desenvolvida por Bruna Andrade Irineu e Larissa Pelúcio em Violência algorítmica e vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência (ABETH, 2025), entende-se aqui por violência algorítmica o conjunto de efeitos produzidos por sistemas automatizados de classificação, recomendação e moderação que podem restringir a visibilidade e a circulação de determinados grupos, discursos e formas de expressão, muitas vezes sem transparência ou possibilidade efetiva de contestação. 

Essa definição não significa que toda remoção de conteúdo constitua violência algorítmica, nem que a moderação seja, em si mesma, uma prática ilegítima. A moderação é frequentemente apresentada como um mecanismo de proteção dos usuários e de organização da convivência nas plataformas. No entanto, suas regras e procedimentos podem operar de maneira opaca ou discriminatória, especialmente quando critérios pouco transparentes classificam expressões LGBTQIAPN+ como inadequadas, controversas ou “sensíveis”, limitando sua circulação e reduzindo as possibilidades de encontro, organização e reconhecimento. 

O 19 de agosto, portanto, não remete apenas a uma vitória localizada no passado. A data constitui uma chave de leitura do presente porque permite compreender a memória como uma prática política. Recuperar a ocupação do Ferro’s Bar torna visíveis as disputas históricas em torno do direito de falar, organizar-se e ocupar a esfera pública. Mais de quatro décadas depois, a pergunta permanece, ainda que os espaços e os mecanismos tenham mudado: quem pode tornar-se visível? Quem decide quais vozes circularão? Quem tem direito ao orgulho? 

*Bruna Andrade Irineu é escritora, assistente social, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pesquisadora na área de políticas públicas, gênero e sexualidade. 

Ricardo Hida
Ricardo Hida
Ricardo Hida, PhD, é jornalista, trend setter e aficionado por mitologia, moda e viagens. Pesquisador na PUC-SP em estudos de gênero. Apresentador na 95,7 FM em São Paulo e sócio da Promonde. Autor de coautor de 11 livros. Desde 2003 trabalha com turismo LGBT.

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