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Aysha Pink: dos palcos à política pública, uma drag quer transformar Porto Seguro pelo turismo LGBT+

Por trás das perucas, figurinos, pedrarias e do humor de Aysha Pink está Allan Cardoso, gestor público que encontrou no turismo uma maneira de levar a diversidade para além dos palcos. Em Porto Seguro, um dos destinos turísticos mais conhecidos do Brasil, ele ocupa hoje a Gerência da Diversidade e trabalha para inserir o público LGBT+ de forma permanente nas estratégias do município.

A relação de Allan com o turismo começou antes da gestão pública. Ele trabalhou em grandes barracas de praia de Porto Seguro e construiu a carreira de Aysha em contato direto com turistas. Nascido em Nanuque, em Minas Gerais, e criado em Medeiros Neto, na Bahia, consolidou sua personagem justamente nas areias do destino baiano.

Nos últimos anos, essa trajetória ganhou uma dimensão institucional. Porto Seguro passou a participar de feiras especializadas, promover capacitações e incorporar eventos e ações direcionados ao segmento LGBT+ à sua agenda turística. Em julho, o destino esteve pelo segundo ano consecutivo na LGBT+ Turismo Expo, em São Paulo, com estande próprio e participação na programação técnica.

Aysha, porém, não abandonou os palcos. A artista e o gestor coexistem e, segundo Allan, se alimentam mutuamente. Se uma abriu portas, o outro descobriu que era preciso também ocupar as mesas onde decisões são tomadas.

À ViaG, Aysha Pink fala sobre turismo inclusivo, cultura drag, preconceito, gestão pública e o desafio de transformar diversidade em uma política permanente para Porto Seguro.

ViaG — Você costuma dizer que Aysha Pink abriu caminhos para Allan Cardoso. Em que momento percebeu que a arte já não era suficiente e que era preciso ocupar espaços de decisão?

AP — Quando percebi que subir ao palco era importante, mas sentar à mesa onde as decisões são tomadas era ainda mais. A arte abriu a porta, mas foi a gestão que me permitiu transformar sonhos em realidade.

ViaG — Muitas drags fazem entretenimento. Você escolheu também fazer política pública. Foi uma decisão planejada?

AP — Foi algo muito natural. Minha caminhada mostrou que eu podia fazer além do entretenimento. Podia ajudar a construir oportunidades para outras pessoas.

ViaG — Existe algo que Allan consegue fazer que Aysha não consegue? E o contrário?

AP — Allan é mais reservado e pensa muito antes de agir. Aysha é coragem, atitude e enfrenta qualquer desafio. Um completa o outro.

ViaG — Quando falamos em turismo inclusivo, do que estamos falando exatamente?

AP — De permitir que qualquer pessoa possa viajar, ser bem recebida e respeitada e viver momentos felizes sem medo de ser quem é.

ViaG — Como convencer empresários de que inclusão também é estratégica para os negócios?

AP — Mostrando que acolher bem faz o cliente voltar, indicar o destino e fortalecer a imagem da empresa. Todo mundo ganha.

ViaG — Existe diferença entre um destino gay friendly e um destino verdadeiramente inclusivo?

AP — Existe. Ser gay friendly é receber bem. Ser inclusivo é preparar a cidade para acolher todas as pessoas com respeito de verdade.

ViaG — Qual mudança na gestão pública mais lhe dá orgulho?

AP — Ter colocado a diversidade como parte do turismo oficial de Porto Seguro. Hoje somos vistos e ouvidos.

ViaG — Porto Seguro é historicamente associado ao turismo de massa. Como apresentar outro destino ao viajante LGBT que procura cultura, segurança e acolhimento?

AP — Mostrando que Porto Seguro tem muito além das praias. Temos cultura, história, artistas, acolhimento e uma comunidade que recebe de braços abertos.

ViaG — E qual é o principal desafio para transformar essa imagem?

AP — Quebrar preconceitos e mostrar que investir na diversidade faz bem para toda a cidade.

ViaG — Como hotéis, bares, receptivos e guias entram nesse processo?

AP — Com diálogo, orientação e qualificação. É preciso mostrar que respeito e bom atendimento fazem toda a diferença.

ViaG — O que ainda falta para Porto Seguro se tornar uma referência nacional em turismo LGBT+?

AP — Continuar investindo, capacitando pessoas e fortalecendo eventos que mostrem nossa diversidade.

ViaG — Existe uma expectativa injusta de que uma pessoa LGBT que chega ao poder tenha de representar toda a comunidade?

AP — Existe. Ninguém consegue falar por todas as pessoas. Procuro ouvir o máximo possível e trabalhar para todos. Cada pessoa tem uma realidade diferente e todas merecem respeito.

ViaG — A cena drag brasileira mudou muito nos últimos 15 anos. O que ganhamos e o que perdemos?

AP — Ganhamos visibilidade. Perdemos um pouco da valorização da história de quem abriu caminho antes.

ViaG — Existe o risco de a cultura drag virar apenas entretenimento e perder sua dimensão política?

AP — Existe, mas acredito que cada drag escolhe como quer usar sua voz. A minha sempre será também uma ferramenta de transformação política, principalmente na busca por direitos e justiça.

ViaG — Quem foram suas grandes referências?

AP — Lady Butterfly, por ter sido a primeira drag que conheci em Porto Seguro; Suzy Brasil, porque conheci sua arte no Rio de Janeiro e aprendi muito; e, claro, minha mãe drag, Silvetty Montilla, pelas portas que abriu. Também me inspiro em muitas artistas que lutaram quando quase ninguém olhava para elas.

ViaG — O que falta para artistas drag serem reconhecidos como agentes culturais e não somente como performers?

AP — Reconhecimento, investimento e respeito pelo nosso trabalho como cultura. Temos a arte, a comunicação e o entretenimento. Ainda existe muito preconceito contra a presença de artistas drag em determinados espaços.

ViaG — O Brasil vende internacionalmente uma imagem de diversidade, mas ainda convive com a violência contra pessoas LGBT+. Como lidar com essa contradição ao promover um destino?

AP — Falando a verdade e trabalhando para que os espaços sejam cada vez mais seguros. Segurança e acolhimento precisam caminhar juntos.

ViaG — Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

AP — Os momentos em que pensei em desistir por causa do preconceito. E não foi somente preconceito de heterossexuais. Enfrentei preconceitos dentro do próprio meio LGBT, que muitas vezes exclui pessoas que se montam ou são afeminadas. Às vezes servimos como humoristas para alegrar a vida das pessoas, mas não somos vistos como pessoas para relacionamentos. Mesmo assim, sempre encontrei força para continuar.

ViaG — O que faz você continuar acreditando?

AP — Ver que minha história inspira outras pessoas a acreditarem nos próprios sonhos.

ViaG — E o que mais emociona quando olha para sua trajetória?

AP — Ver onde comecei e onde consegui chegar. Cada conquista tem muito esforço, lágrimas e amor.

ViaG — Que sonho ainda falta realizar?

AP — Muitos. Quero ver Porto Seguro como uma referência nacional em turismo LGBT+ e continuar levando minha arte para o Brasil e para o mundo.

ViaG — Se pudesse deixar uma única política pública permanente para Porto Seguro, qual seria?

AP — Uma política de diversidade que nunca dependesse de quem está no governo, mas que fosse um compromisso da cidade.

Bate-pronto

ViaG — Um destino LGBT no mundo?

AP — Madri.

ViaG — Um destino brasileiro ainda subestimado?

AP — Porto Seguro.

ViaG — Uma drag que todos deveriam conhecer?

AP — Silvetty Montilla.

ViaG — Um artista que inspira?

AP — Paulo Gustavo.

ViaG — Uma música que define Aysha Pink?

AP — “I Will Survive”.

ViaG — Um livro que mudou sua vida?

AP — O Pequeno Príncipe.

ViaG — O melhor conselho que recebeu?

AP — Nunca deixe ninguém dizer que você não é capaz.

ViaG — O maior preconceito que ainda precisa ser combatido?

AP — A transfobia e toda forma de intolerância.

ViaG — O que significa hospitalidade?

AP — Fazer alguém se sentir em casa, sendo exatamente quem é.

ViaG — Complete: viajar só faz sentido quando…

AP — …a gente volta para casa levando histórias, respeito e boas lembranças.

Ricardo Hida
Ricardo Hida
Ricardo Hida, PhD, é jornalista, trend setter e aficionado por mitologia, moda e viagens. Pesquisador na PUC-SP em estudos de gênero. Apresentador na 95,7 FM em São Paulo e sócio da Promonde. Autor de coautor de 11 livros. Desde 2003 trabalha com turismo LGBT.

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