Revista ViaG

Saúde mental LGBT+: estudo alerta para risco nas universidades

Pesquisa com 551 universitários da Universidade Federal do Pará identifica maior vulnerabilidade à ansiedade, depressão e estresse entre estudantes LGBT+.

A universidade costuma ser associada à autonomia, novas amizades e descoberta de caminhos profissionais. Para parte dos estudantes LGBT+, porém, a vida acadêmica também pode representar uma sucessão de pressões sociais capazes de afetar a saúde mental.

Uma pesquisa realizada com 551 alunos da Universidade Federal do Pará (UFPA) identificou maior vulnerabilidade à ansiedade, depressão e estresse entre estudantes lésbicas, gays e bissexuais quando comparados aos heterossexuais. Os resultados foram publicados em 2025 no artigo “A relação entre diversidade sexual e saúde mental no ensino superior”, na revista Caderno Pedagógico.

O trabalho foi desenvolvido por Vinicius Cutrim e outros pesquisadores ligados à UFPA. A amostra reuniu 257 estudantes de Engenharia Civil e 294 alunos dos cursos de Psicologia, Filosofia, História, Ciências Sociais e Geografia. Os participantes responderam a um questionário online e à Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse, conhecida pela sigla DASS.

Os resultados reforçam um debate que há anos mobiliza pesquisadores da psicologia e da saúde pública: orientação sexual não é causa de transtornos mentais. O problema está relacionado, entre outros fatores, ao impacto do preconceito, da rejeição e da expectativa permanente de discriminação.

Saúde mental LGBT+ apresenta diferenças entre universitários

A pesquisa da UFPA encontrou índices elevados de ansiedade, depressão e estresse no conjunto dos estudantes avaliados. Entretanto, os indicadores foram piores entre as minorias sexuais analisadas.

As diferenças chamaram atenção inclusive em cursos ligados às Ciências Humanas. Geografia apresentou a maior distância nos indicadores de saúde mental entre estudantes heterossexuais e não heteronormativos. Ciências Sociais apareceu em seguida, enquanto Engenharia Civil ficou na terceira posição entre os cursos com diferenças mais acentuadas.

O resultado confronta uma percepção relativamente comum: a ideia de que ambientes nos quais diversidade, gênero e direitos são discutidos academicamente seriam automaticamente espaços socialmente acolhedores.

Conhecer teorias ou dominar o vocabulário da inclusão não elimina comportamentos excludentes. Em entrevista ao jornal Beira do Rio, da UFPA, Vinicius Cutrim chamou atenção justamente para a distância possível entre “saber falar” sobre direitos e transformar esse conhecimento em relações cotidianas livres de estigmas e violência.

O dado é particularmente relevante para instituições de ensino superior. A universidade reúne salas de aula, grupos de pesquisa, festas, centros acadêmicos, repúblicas estudantis e redes profissionais. Para muitos jovens, é também o primeiro espaço de construção de uma identidade adulta independente da família.

Nesse contexto, sentir que é preciso vigiar gestos, esconder relacionamentos ou avaliar constantemente se uma informação sobre a própria vida pode provocar rejeição representa uma carga emocional adicional.

Saúde mental LGBT+ pode piorar ao longo da graduação

Outro resultado da pesquisa merece atenção. Os pesquisadores observaram diferenças entre estudantes no início da graduação e aqueles que já estavam havia alguns anos na universidade.

Calouros com até um ano de curso apresentaram indicadores classificados dentro de níveis considerados normais. Entre veteranos com pelo menos três anos de vida acadêmica, os níveis de depressão, ansiedade e estresse chegaram às faixas de moderado a grave.

Os autores discutem a possibilidade de que o tempo de exposição ao ambiente universitário funcione como uma variável relevante. Isso não significa afirmar que a universidade, isoladamente, cause depressão ou ansiedade. O próprio desenho da pesquisa exige cautela diante de relações causais.

O resultado sugere, contudo, que pressões acadêmicas podem se acumular com outros marcadores sociais e experiências de discriminação.

A vida universitária já inclui fatores conhecidos de tensão. Prazos, avaliações, insegurança profissional, dificuldades financeiras e competição fazem parte da rotina de muitos alunos. Pesquisas brasileiras anteriores também identificaram prevalência elevada de sintomas de estresse, ansiedade e depressão entre universitários de diferentes perfis. Um estudo publicado na revista Estudos de Psicologia, por exemplo, encontrou prevalências de 56,8% para estresse, 41,7% para ansiedade e 37% para depressão na população universitária analisada.

Para estudantes LGBT+, essas pressões podem coexistir com experiências específicas relacionadas à orientação sexual.

O que é estresse de minoria e por que ele afeta pessoas LGBT+

Uma das principais referências teóricas para compreender a saúde mental LGBT+ é a Teoria do Estresse de Minoria.

O conceito parte de uma ideia relativamente simples: pessoas pertencentes a grupos socialmente estigmatizados enfrentam os problemas cotidianos comuns à população e, simultaneamente, pressões específicas relacionadas à condição de minoria.

No caso de gays, lésbicas e bissexuais, essas pressões podem incluir experiências de discriminação, expectativa de rejeição, necessidade de ocultar a orientação sexual e internalização de percepções negativas sobre a própria identidade.

Imagine dois estudantes submetidos à mesma prova difícil. Ambos podem experimentar ansiedade acadêmica. Um deles, porém, também pode estar lidando com a rejeição da família após revelar que é gay, evitando comentar um relacionamento com colegas ou tentando identificar se um professor demonstrará preconceito.

São camadas diferentes de tensão.

A literatura sobre estresse de minoria destaca que esses fatores adicionais podem comprometer o bem-estar psicológico. Uma revisão brasileira publicada em 2020 lembra que os índices de sofrimento mental observados entre pessoas LGB estão relacionados em grande parte ao estigma social associado às orientações não heterossexuais, e não à orientação sexual em si.

Essa distinção é fundamental. Transformar a identidade LGBT+ em explicação para o sofrimento significaria retornar a uma visão patologizante da homossexualidade.

O Conselho Federal de Psicologia também destaca que o sofrimento psíquico da população LGBT+ deve ser compreendido dentro de uma rede de fatores ambientais, políticos, sociais e culturais. A rejeição e a discriminação podem participar diretamente dessa dinâmica.

Saúde mental LGBT+ exige acolhimento além do discurso

Os pesquisadores da UFPA também trabalham com o conceito de “ambiente nutridor”. A ideia se refere à construção de espaços capazes de favorecer relações sociais e desenvolvimento saudável.

No contexto universitário, isso significa pensar em prevenção antes que o estudante chegue a uma situação grave de sofrimento.

Serviços de atendimento psicológico são importantes, mas representam uma parte da questão. Uma política institucional de saúde mental LGBT+ também pode envolver treinamento de professores e equipes administrativas, mecanismos seguros para denúncias de discriminação, grupos de acolhimento e redes de apoio entre estudantes.

A formação dos profissionais responsáveis pelo atendimento psicológico merece atenção. Pesquisas sobre saúde mental da população LGBT+ no Brasil apontam a necessidade de reconhecer especificidades relacionadas à orientação sexual e à identidade de gênero durante os processos de cuidado.

Tratar todos os pacientes de maneira aparentemente idêntica pode parecer uma atitude igualitária. Na prática, ignorar contextos sociais diferentes pode dificultar a compreensão do sofrimento.

Um jovem que desenvolve ansiedade após meses escondendo sua orientação sexual da família enfrenta uma realidade distinta daquela vivida por alguém cuja principal fonte de ansiedade é exclusivamente acadêmica. O diagnóstico e o atendimento precisam considerar o conjunto da experiência do indivíduo.

No Brasil, a Política Nacional de Saúde Integral LGBT, instituída no Sistema Único de Saúde em 2011, já reconheceu a necessidade de enfrentar problemas relacionados à saúde mental, depressão e suicídio entre lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. A política também relaciona discriminação e preconceito às desigualdades de saúde enfrentadas por essa população.

Universidade pode ser espaço de proteção para estudantes LGBT+

A discussão sobre saúde mental LGBT+ não precisa transformar a universidade exclusivamente em cenário de risco.

Instituições de ensino também podem criar redes de pertencimento que muitos jovens não encontraram na escola ou dentro da própria família.

O contato com outros estudantes LGBT+, a participação em grupos acadêmicos e a possibilidade de construir relações afetivas com maior autonomia podem funcionar como fatores de proteção.

É justamente por isso que o ambiente universitário precisa ser analisado em sua complexidade.

A mesma instituição capaz de ampliar horizontes intelectuais pode reproduzir piadas, exclusões e formas sutis de preconceito. Em outros casos, professores, colegas e serviços de assistência estudantil podem representar a primeira rede consistente de acolhimento encontrada por um jovem LGBT+.

O trabalho liderado por Vinicius Cutrim segue em desenvolvimento. A proposta dos pesquisadores é utilizar os dados para pensar estratégias institucionais viáveis de prevenção e acolhimento. O foco está em identificar fragilidades e potencialidades do ambiente acadêmico.

A pesquisa tem limitações que precisam ser consideradas. Os 551 participantes pertenciam a cursos específicos da Universidade Federal do Pará. Portanto, os resultados não devem ser automaticamente generalizados para todos os universitários LGBT+ do Brasil.

Ainda assim, as conclusões dialogam com outros estudos brasileiros. Uma pesquisa realizada com 110 universitários em Cajazeiras, no sertão da Paraíba, também encontrou escores mais elevados de estresse, ansiedade e depressão entre participantes LGBT+ quando comparados aos heterossexuais.

A repetição de resultados semelhantes em diferentes contextos ajuda a ampliar a discussão.

Saúde mental LGBT+ deve entrar na agenda das universidades

O debate sobre saúde mental no ensino superior cresceu nos últimos anos, mas políticas universais podem ser insuficientes quando ignoram desigualdades específicas.

A pesquisa realizada na UFPA mostra que estudantes LGBT+ podem atravessar a graduação acumulando pressões acadêmicas e sociais. Os indicadores mais graves entre veteranos levantam uma questão importante: esperar o estudante procurar ajuda quando já está em sofrimento intenso pode ser tarde para uma política eficiente de prevenção.

Universidades precisam conhecer seus alunos, produzir dados e avaliar o próprio ambiente institucional. Também precisam compreender que falar sobre diversidade em disciplinas ou campanhas não garante, por si só, relações cotidianas acolhedoras.

A saúde mental LGBT+ nas universidades é uma questão de saúde, educação e permanência estudantil. Quando um aluno precisa gastar parte de sua energia emocional administrando o medo da rejeição ou os efeitos do preconceito, sua experiência acadêmica ocorre em condições diferentes.

O estudo brasileiro com 551 universitários acrescenta novos dados a uma literatura que vem apontando na mesma direção: o sofrimento psíquico de pessoas LGBT+ precisa ser analisado dentro do contexto social em que elas vivem.

Para as universidades, a conclusão prática é direta. Acolhimento não pode existir somente no discurso institucional. Ele precisa ser percebido nas relações, nos serviços e na rotina de quem passa anos dentro de um campus.

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