Revista ViaG

Pesquisa Ipsos sobre direitos LGBT+ revela mudança de opinião no Brasil

Novo levantamento da Ipsos mostra que brasileiros continuam apoiando medidas contra a discriminação, mas demonstram menor adesão ao casamento igualitário, ao ativismo de marcas e à participação de atletas trans.


Pesquisa Ipsos sobre direitos LGBT+ revela um Brasil dividido entre apoio e resistência

O novo Ipsos LGBT+ Pride Report 2026 mostra que o Brasil continua entre os países com maior apoio à proteção legal da população LGBTQIAPN+, mas também registra uma queda consistente no respaldo a temas que ganharam força na última década, como campanhas de diversidade promovidas por empresas, casamento entre pessoas do mesmo sexo e participação de atletas trans em competições esportivas.

Os resultados revelam uma sociedade marcada por posições ambivalentes. Ao mesmo tempo em que a maioria reconhece a existência da discriminação e defende mecanismos legais para combatê-la, cresce a resistência em relação a pautas ligadas à ampliação de direitos e à visibilidade da comunidade. O cenário brasileiro acompanha uma tendência observada internacionalmente, ainda que com características próprias.

Apoio à proteção contra discriminação continua elevado

Entre os indicadores mais sólidos da pesquisa está o respaldo às leis de combate à discriminação.

Segundo o levantamento, 58% dos brasileiros defendem legislação que proíba discriminação contra pessoas LGBTQIAPN+ no trabalho, na moradia e no acesso a serviços, índice superior à média global, de 52%.

Outro dado expressivo diz respeito à percepção da realidade vivida por pessoas trans.

Três em cada quatro brasileiros (75%) afirmam que pessoas trans enfrentam elevado nível de discriminação, percentual dez pontos acima da média dos 26 países pesquisados, que ficou em 65%.

Esses números indicam que a percepção sobre desigualdades permanece consolidada, mesmo em um ambiente político e cultural marcado por maior polarização.

Casamento igualitário perde apoio entre brasileiros

Um dos resultados que mais chama atenção é a redução do apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Em 2021, 49% dos brasileiros eram favoráveis ao casamento igualitário. Em 2026, esse índice caiu para 44%.

O contraste com o cenário internacional também chama atenção.

Enquanto a média global alcança 53%, o Brasil aparece abaixo desse patamar, apesar de o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo estar reconhecido nacionalmente desde a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2013, que determinou que cartórios realizassem casamentos homoafetivos em todo o país.

A pesquisa mostra que avanços jurídicos nem sempre caminham no mesmo ritmo da opinião pública.

Marcas e campanhas do Orgulho enfrentam ambiente mais desafiador

Outro movimento identificado pelo estudo envolve a relação entre empresas e diversidade.

O apoio às marcas que promovem ações em defesa da igualdade LGBTQIAPN+ continua superior no Brasil em comparação ao restante do mundo.

Hoje, 49% dos brasileiros aprovam esse posicionamento corporativo, enquanto a média global é de 42%.Ainda assim, houve uma redução significativa. Em 2021, o índice brasileiro era de 58%, representando uma queda de nove pontos percentuais em cinco anos.

O levantamento também aponta diminuição do apoio à presença de personagens LGBTQIAPN+ em filmes, séries e demais produtos culturais. A aprovação caiu de 46% para 37% no mesmo período.

Especialistas da Ipsos associam essa mudança ao fortalecimento de discursos conservadores em diferentes ambientes, especialmente nas redes sociais, e ao reposicionamento de diversas empresas diante da polarização política.

Nos últimos anos, diversas marcas reduziram campanhas públicas durante o Mês do Orgulho ou optaram por iniciativas menos visíveis, fenômeno observado também em outros mercados internacionais.

Esportes continuam sendo o tema mais polarizador

Entre todos os assuntos avaliados, a participação de atletas trans permanece como aquele que gera maior divisão.

Globalmente, apenas 22% apoiam que atletas trans disputem competições de acordo com sua identidade de gênero. No Brasil, esse índice chega a 29%, acima da média internacional, mas distante do registrado cinco anos atrás. Em 2021, eram 40% os brasileiros favoráveis.

A redução acompanha discussões que vêm ocorrendo em federações esportivas internacionais e nacionais, muitas delas revisando regulamentos relacionados à elegibilidade de atletas trans em modalidades femininas.

O tema continua sendo um dos principais pontos de tensão nas pesquisas de opinião sobre direitos LGBT+, reunindo argumentos ligados à inclusão, à igualdade de oportunidades e às regras esportivas.

O que explica essa mudança na opinião pública?

Embora o estudo não investigue diretamente as causas das mudanças de percepção, a própria Ipsos aponta que os resultados refletem um ambiente social marcado por maior disputa em torno das agendas relacionadas à diversidade.

Nos últimos anos, debates sobre identidade de gênero, educação, representatividade e políticas corporativas passaram a ocupar espaço central nas redes sociais e no debate político em diversos países.

Ao mesmo tempo, pesquisas internacionais indicam que a sociedade continua apoiando majoritariamente medidas contra discriminação e violência, mesmo quando demonstra menor adesão a outras pautas ligadas à comunidade LGBT+.

Esse cenário ajuda a compreender por que indicadores aparentemente contraditórios convivem na mesma pesquisa.

O Brasil permanece entre os países que mais reconhecem a existência da discriminação contra pessoas LGBT+, mas apresenta retração em temas ligados à expansão de direitos e à presença pública da diversidade.

Um retrato de um momento de transição

Realizado entre 24 de abril e 8 de maio de 2026, o Ipsos LGBT+ Pride Report 2026 entrevistou 19.019 adultos em 26 países. No Brasil, participaram 1.000 entrevistados, com margem de erro de aproximadamente 3,5 pontos percentuais.

Os resultados mostram que o debate sobre direitos LGBTQIAPN+ está longe de apresentar respostas simples.

Enquanto políticas de combate à discriminação seguem reunindo apoio majoritário, temas ligados à visibilidade, ao reconhecimento de direitos civis e à inclusão em determinadas áreas da sociedade continuam sujeitos a oscilações influenciadas pelo contexto político, cultural e econômico.

Para organizações da sociedade civil, empresas e formuladores de políticas públicas, compreender essas mudanças torna-se fundamental para interpretar o atual momento das discussões sobre diversidade no Brasil.

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