Premiado por sua interpretação de Clodovil Hernandes, Eduardo Martini conduz um espetáculo que evita caricaturas e transforma um personagem controverso em um retrato profundamente humano.
Não conheci Clodovil Hernandes pelas polêmicas. Conheci pela televisão. Como muitos brasileiros da minha geração, cresci vendo aquele homem elegante, inteligente e dono de uma língua afiada ocupar um espaço que parecia improvável para a época. Décadas antes de a representatividade LGBT+ ganhar força no debate público, ele já era um estilista consagrado e um apresentador assumidamente gay em horário nobre. Nunca quis representar movimento algum e, muitas vezes, entrou em choque com pautas defendidas pela própria comunidade LGBT+. Ainda assim, para muitos homens gays dos anos 1970, 1980 e 1990, sua trajetória mostrava que era possível construir uma carreira de sucesso sem esconder quem se era.
Talvez por isso Clodovil continue despertando sentimentos tão contraditórios. Foi brilhante e cruel, refinado e vaidoso, generoso e explosivo. Reduzi-lo a herói ou vilão sempre significou ignorar parte de sua história.
É justamente dessa complexidade que nasce a força de Clô, pra sempre. O texto de Raphael Gama evita absolver ou condenar seu personagem. Em vez disso, procura entender como a infância marcada pelo abandono, as frustrações afetivas e uma solidão permanente ajudaram a moldar uma personalidade que jamais coube em definições simples. A crítica especializada destacou exatamente esse equilíbrio, ao ressaltar que a montagem resiste ao julgamento moral e prefere revelar o homem por trás da figura pública.
Eduardo Martini realiza uma interpretação extraordinária. O reconhecimento com o Prêmio Bibi Ferreira faz todo sentido quando se observa o que acontece em cena. A voz, os gestos e o ritmo da fala impressionam, mas o maior mérito está em outro lugar: aos poucos, o ator desaparece e deixa apenas Clodovil diante do público. Não é uma imitação. É uma construção dramática rara, que encontra humanidade onde seria muito mais fácil explorar apenas a caricatura.
A direção de Viviane Alfano mantém o espetáculo em permanente equilíbrio entre humor e emoção. As intervenções musicais surgem com elegância, sem interromper a narrativa, enquanto o texto alterna a ironia que tornou Clodovil famoso com momentos de enorme delicadeza. O resultado é um retrato sensível de alguém que continua provocando debates muitos anos depois de sua morte.
Confesso que tenho certa resistência aos aplausos de pé. Eles se tornaram quase um protocolo nos teatros brasileiros e, justamente por isso, perderam parte do significado. Em Clô, pra sempre, aconteceu o contrário. Eu não me levantei porque o restante da plateia se levantou. Simplesmente pulei da cadeira.
Saí do teatro convencido de que Eduardo Martini não interpreta Clodovil. Durante sessenta minutos, ele o faz voltar à vida. E talvez esse seja o maior elogio que um ator possa receber.
