Silvero Pereira fala sobre a infância, estrelato e militância. Confira!

Silvero Pereira fala sobre a infância, estrelato e militância. Confira!

Da infância pobre no interior do Ceará à representatividade da comunidade LGBT dentro da TV e nos palcos brasileiros.

Silvero Pereira é aquele tipo de pessoa que dá orgulho de conversar sobre a vida. Nasceu com o estereótipo da família pobre nordestina, como ele mesmo diz, já que “mal tinha comida e água potável na mesa”. Encarou o preconceito por ser gay e afeminado vivendo no interior do Ceará. E, mesmo com as dificuldades, não deixava de fantasiar com o seu programa de auditório, o “Silver Show”, aos sete anos. Como numa reviravolta de novela, o menino cresceu, um dos personagens mais emocionantes em “A Força do Querer”, da Globo, e estreou recentemente seu sonho de infância, o “Silver Show”, com banda ao vivo, bailarinos e uma grande produção. Literalmente entre um intervalo e outro dos ensaios, Silvero conversou com a ViaG e contou detalhes de sua vida, desde a infância ao estouro como Nonato/Elis, que emocionou o País inteiro.

Como foi a sua criação com seus pais?
Foi difícil porque tive uma mãe muito presente e um pai muito ausente. Meu pai era pedreiro, trabalhava quatro meses fora e ficava quatro dias em casa, então tenho pouca referência dele quando criança. Amadureci muito cedo, comecei a trabalhar aos 12 anos. Vivi na minha cidade até os 13, mas sempre tive uma visão muito adulta da vida, por conta da necessidade que a minha família tinha. As poucas lembranças que tenho quando criança era fantasiando. Gostava de imitar programas de auditório, os cantores, e fazia entrevistas. De alguma maneira, a minha imaginação era uma forma de driblar as questões sociais.

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Com quantos anos se descobriu gay?
Nunca precisei dizer para a minha família que eu era homossexual. Ao longo da minha vida, fui vivendo e demonstrando na maneira de agir, de pensar. Isso foi se tornando muito comum e sem necessidade dessa apresentação da homossexualidade. Meus pais também entenderam dessa maneira, que esse filho era diferente dos outros, mas merecia tanto respeito e carinho quanto os outros.

Como você lidava com o preconceito por conta da homossexualidade?
Não compreendia as questões de gênero quando era criança e adolescente, mas dois fatos foram presentes na minha vida. Primeiro foi um garoto que era muito afeminado e vi a escola inteira se voltar contra ele. Eu era bastante parecido com ele, mas não queria passar pelo mesmo sofrimento. Fui me protegendo e me acovardando ao invés de dar a mão para aquele colega e fazer com que a gente vencesse juntos. Mas eu sabia que era impossível. Outro ponto é que tinha uma travesti na minha cidade que se chamava Barbosinha e todo mundo dizia que ela era uma doença.

Nonato travestido de Elis Miranda, personagem de "A Força do querer" (Rede Globo)
Nonato travestido de Elis Miranda, personagem de “A Força do querer” (Rede Globo)

Como percebeu que tinha vocação para a carreira artística?
Quando pequeno, tinha meu programa de televisão que se chamava “Silver Show”, que é a peça que eu estou em cartaz. E o nome do show é exatamente esse porque é uma homenagem a essa criança que já brincava de ser artista. No teatro, só comecei aos 17 anos, já morava em Fortaleza e entendi que podia ser uma possibilidade profissional. Entrei para a graduação de Artes Cênicas, fundei vários grupos de teatro com os meus colegas, entre eles, “As Travestidas”, que é o meu maior projeto em teatro até hoje e que existe desde 2005.

Como aconteceu o convite para fazer Nonato/Elis em “A Força do Querer”?
Estava em cartaz com o espetáculo “BR Trans” e a Glória (Perez) foi assistir no último dia, sentada na primeira fileira. Ela ainda estava construindo a novela, não existia o meu personagem, mas ela gostou tanto que decidiu criar o Nonato/Elis quando aceitei o convite. Foi uma experiência incrível, era um papel pequeno que foi crescendo e hoje eu realmente devo tudo o que tem acontecido nos últimos três anos ao fato de ela ter me assistido no teatro e me levado para a televisão.

E como foi viver esse personagem tão intenso?
Foi incrível porque não fugia dos meus princípios, já que no teatro eu já discutia as questões de gênero. Então pude levar o conhecimento que já tinha para dentro da televisão. Cresci imensamente com a possibilidade de interpretar e viver na televisão, levando todo o aprendizado que tive no teatro.

Você foi vice-campeão do “Show dos Famosos” interpretando dezenas de artistas. Como foi participar do programa?
Foi um grande aprendizado, cresci muito, me tornei mais criterioso, aprendi muito com os professores em todos os quesitos. Saí dessa temporada um artista muito mais pensativo e questionador sobre o meu ofício. Só tenho a agradecer pela grande oportunidade que tive dentro do programa.

Muita gente disse que você deveria levar o primeiro lugar ao invés do Mumuzinho. Você acha que foi injustiçado com o resultado final?
Não há nem o que discutir sobre justiça ou injustiça, o Mumu é um artista exemplar, tenho uma grande admiração. Sempre achei que ele era um dos competidores mais especiais desta temporada e tinha certeza que ele seria um vencedor dentro do potencial dele. Obviamente me permiti correr atrás também, lutei até o final, fiquei muito feliz com o resultado sabendo que fiquei apenas dois décimos abaixo de um cara que eu admiro muito e se dedicou imensamente. De todos os artistas que estavam ali, o Mumu sem dúvida foi o que fez personagens mais emblemáticos, mais encarnados e próximos do que de fato o programa queria. Ele entendeu esse jogo, fez isso com maestria e não há nada mais justo que ele ter ficado em primeiro lugar.

Seu novo espetáculo “Silver Show” tem bastante inspiração, já que você leva para o palco os personagens que interpretou no “Show dos Famoso”. O que o público pode esperar?
O “Silver Show” parte da oportunidade de levar para perto das pessoas os personagens que fiz no programa. Paralelo a isso, juntei as músicas que a Elis Miranda fazia na novela. Mas a inspiração veio mesmo do “Silver Show” criança, quando eu, com sete anos, brincava de ter meu programa de auditório. Estou realizando um grande sonho que é viver essa infância dentro desse show.

Pretende sair em turnê pelo Brasil?
Quero que o espetáculo tenha uma turnê, viaje pelo Brasil porque é um projeto audacioso: Tenho banda ao vivo, balé, uma equipe toda por trás. Estou produzindo, bancando, não tem patrocinador. Então fica complicado viajar assim. Mas, a princípio, estamos em Fortaleza e, logo depois, vamos correr atrás de patrocínio para rodar o Brasil.

Quem é o seu maior ídolo?
Meus maiores ídolos são meus pais. Hoje olho para a trajetória deles e não posso dizer outra coisa diferente do que a coragem e a garra que eles tiveram para sustentar uma família diante de todas as adversidades. Realmente é um exemplo absurdo.

Qual o seu maior sonho?
É viver de arte. Tenho o privilégio de ter o meu trabalho reconhecido, das pessoas me encontrarem e falarem que eu tenho um trabalho interessante. Mas é muito difícil viver de arte no Brasil. É uma batalha a cada dia. Não estou no topo, estou no início de uma subida muito difícil. Meu sonho é um dia poder viver de arte tranquilamente.
Como você enxerga a nossa situação política hoje?
Acho que a situação política do Brasil é bem delicada. Não somos um País democrático, laico ou com igualdade. Não temos uma bancada que represente de fato a população brasileira, nós não temos ninguém que seja representante dos oprimidos, e que não são minorias. Se juntarmos todas as minorias, somos a maioria na resistência. É um País que deve muito ainda para as pessoas que compõem essa nação. Não existe representatividade, não existem leis que abracem e que permitam que a gente viva num País verdadeiramente democrático.

O quanto é importante para você estar na TV representando e dando representatividade para uma minoria que é a comunidade LGBT?
Me sinto com uma grande obrigação toda vez que apareço na televisão. Porque fui uma pessoa que, durante a infância e adolescência, não me via representado. Hoje acho que tenho uma responsabilidade imensa de fazer com que outras pessoas que estão do outro lado da televisão possam olhar para mim, reconhecer a minha história e ver que existe esperança, uma luta e espaço para todo mundo. Quanto mais eu puder dizer que estou fora do armário, assumido, e incentivar as pessoas a terem orgulho do que elas são, aí, de fato estou cumprindo a minha função como artista.

Foto da personagem Elis Miranda: Raquel Cunha/Globo

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