Crítica: Me Chame Pelo Seu Nome – Por Brunno Almeida Maia

Crítica: Me Chame Pelo Seu Nome – Por Brunno Almeida Maia

Depois de muita relutância interna, decidi assistir o comentado Me chame pelo seu nome (2017), de Luca Guadagnino. Confesso que fiquei desapontado pelo perturbador e estranho Mother (2017), de Darren Aronofsky, ter sido excluído da lista do Oscar, o que aumentou a minha expectativa em relação à fita de Guadagnino. Ambos, aos seus modos, são “espíritos do tempo”, mas como negações de certas ordens vigentes: “Mother” pela iminente catástrofe que não temos coragem em admitir, e “Me chame” pelo seu acorde dissonante. Não espere por um filme “lacrador”, “empoderado” e “descontruidão”, a beleza e a delicadeza da fita residem num “certo anacronismo”.

A obra é uma ode à paixão italiana pela cultura, pela arte, pela beleza, pelo caráter sensualista da vida, por certo bom gosto, pelo joie de vivre, e valores humanistas no retorno renascentista ao mundo da Grécia Clássica. Tudo está ali: dos cenários naturais do norte da Itália, nas seqüências que deixam qualquer esteta admirado, como paisagens que estão prontas para abraçarem – o corpo é sempre presente – uma boa história de amor, à citação da filosofia ocidental, personificada em Heidegger, com a tragicidade do seu Dasein, à leitura que o filósofo alemão realizou do famoso fragmento do pré-socrático Heráclito de Éfeso, à literatura francesa do século XVII, à referência explícita à Étienne de La Boétie e Michel de Montaigne, à peça musical de Bach, às estatuárias clássicas, como ideia moderna dos fragmentos – de algo que está exilado, que do fundo do mar precisa desencantar o passado para que a promessa do presente se cumpra – ao judaísmo que não permite espaço pra culpa (rabino não é padre!), até na comida e nos intermináveis banquetes, regados ao vinho e frutas da estação com a vitalidade do pleno desabrochar. Eros, Dionísio e Baco são as personagens deste filme. O amor à língua e à filologia, que, no limite, são as formas mais transcendentes de amor à cultura e à vida, revela o sonho de certo cosmopolitismo que, no entanto, preserva as raízes sem violentar a cultura do outro. Um bom exemplo disto, algo recorrente na produção cinematográfica dos anos 2000 para cá, são os filmes, como o citado, rodados em diversos idiomas.

Neste sentido, “Me chame” é sensualista, altamente proustiano – como se tudo começasse pelo corpo, mas nele não permanecesse. Quem introduz o tema do amor entre Elio e Oliver é a arte: Bach tocado pelo garoto, as descobertas das estatuárias, o trecho lido por Oliver de seu próximo livro – um comentário sobre Heidegger. Mas ao contrário de Proust, no filme, os signos da arte são preparações para os signos do amor. Guadagnino exercita bem a velha lição de Diotima de Mantineia n´O Banquete de Platão, Elio é o jovem que busca por meio da contemplação dos belos corpos – neste o de Oliver, mas também dos dados imediatos da sensibilidade – perscrutar mundos desconhecidos, buscar uma realidade inteiramente outra, um enraizamento para um expatriado, um deslocado. Ao contrário de outras produções com “temática gay”, a paixão irrompe pelos afetos, e não meramente pela consumação do ato sexual (não que uma coisa seja mérito e a outra demérito), mas – e não vou fazer rodeios – a questão dos afetos em nossa época é altamente filosófica, pois urgente; iniciar uma relação pelo caminho do afeto é algo totalmente transgressor – e entendo o afeto não apenas como afecções da alma, mas como uma lança que atravessa o corpo e o espírito, inicialmente imobilizados pelo choque, para em seguida convocar o afetado para uma irremediável decisão, transformar aqueles afetos em algo produtivo, ou ignorá-los e destruí-los. O amor é uma experiência do afeto.

No aspecto formal da obra, a relação do filme com o tempo é uma relação de contemplação, o que só reitera o caráter sensível, melancólico e distendido da personagem Elio. Explico. Para viver um grande amor é necessário a contemplação, o estabelecer uma relação outra com o tempo. Talvez, a história não fosse possível num centro urbano, ou até mesmo em nossa época, daí a escolha pelo caráter ocioso típico das férias como metáfora de um estado de exceção da temporalidade ordinária. Interessante a escolha de dois atores que não são “nem exemplarmente bonitos e nem muito atraentes”, segundo os estereótipos tradicionais gays, mas que possuem suas forças e as suas fraquezas, suas humanidades particulares – a interpretação de Timothée Chalamet é uma revelação!

No desenvolvimento da paixão amorosa entre Elio e Oliver, temos que levar em consideração alguns pontos e questões, como a escolha da ambientação na década de 80 – aliás, figurinos e trilha sonora impecáveis! -, e o fato de ser a primeira experiência homo afetiva do jovem Elio, com todas as suas contradições e belezas, e, explicitamente, o teor de “amor de verão que não sobe a serra”. Todas as fases da paixão (ela é muito previsível, eis a sua mágica!), estão ali: certo “ódio”, uma dose de indiferença, a inquietude – será que o ser amado realmente sente algo por mim? – a melancolia – o medo de perda do objeto no sentido freudiano – as delícias do sexo, mas também da plenitude de estar com o outro, e o momento derradeiro da fusão dos amantes. Todos esses jogos que transformam a paixão em saúde da imaginação traçam o aspecto lúdico do afeto: “Me chame pelo seu nome e eu te chamo pelo meu”, ou pela boca de Montaigne: “Porque era ele, porque era eu”, até o inevitável que é a despedida, uma fulguração da transitoriedade das coisas e da vida. Dependendo do humor – melancólico ou sanguíneo – podemos ler a questão da seguinte maneira – e a sua antecipação acontece na leitura que Elio faz do fragmento 52 de Heráclito: as coisas são belas porque mudam, ou, por outro lado, porque as coisas mudam, em seu caráter aleatório, contingencial, e de perpétua transitoriedade na vida, que podemos emudecer e considerar a existência como uma tragédia plenamente consumada, nossos paraísos ou nossos infernos.

“O que você faz no inverno?”, pergunta Oliver à Elio, logo no começo do filme. Ele poderia responder apelando ao lugar-comum. O que fazemos no inverno? Assim, o filme se utiliza do aspecto cíclico de duas estações do ano para evocar a ideia de que podemos saber, numa espécie de certeza sensível, que o inverno chegará, mas nunca saberemos qual será o seu rosto, a sua expressividade, a sua feição. O eterno retorno nunca é pela mesmidade, é sempre pela diferença. Podemos também traçar um gesto de liberdade agarrando o momento oportuno, e transformando-o em destino, em consumação da eternidade: somente o amor e arte podem permitir ao homem o contato com a eternidade. É aí, que o diálogo final entre o pai e o filho se torna prenhe de sentidos. O amor entre Elio e Oliver fora algo genuíno – disto ninguém dúvida – pois soubera vivenciar intensamente o momento do ocorrido. É que, no filme, a ideia da intensidade é a mais pura expressão da liberdade, este é o verdadeiro sentido de amor livre (uma contradição em termos, pois todo amor é livre), quando, na paixão, os amantes abraçam com toda força os seus afetos, e amam o presente no qual estão inseridos, se jogando impiedosamente naquele destino temporário – muito livremente a ideia de amor fati em Nietzsche.

Romântico? Sim, se entendermos romantismo como a negação do estado atual das coisas, portanto, o romântico é sempre um revoltado! – algo que em nossa época é inviável, pois o romantismo fora reificado, transformado em mercadoria ou algo anacrônico e desprezível. O discurso do pai se atenta para isto, poderiam não se permitir aquela vivência, poderiam ter se anulado, deixado encoberto o ser – não agimos assim cotidianamente? -, mas, intensos que estavam, souberam agarrar a oportunidade das próximas 24 horas, transmutando-a em felicidade.

Revela-se o sentido da fala do pai, e da forte presença (até em excesso) do judaísmo no filme, pois o que o judaísmo nos ensina, por meio da sua história, é que estamos todos à deriva, em perpétuo exílio, e que a Lei entregue no Monte Sinai por Deus à Moisés, não era uma prescrição estrita, mas uma  folha em branco, algo a ser escrito e reescrito numa exausta tarefa contínua de interpretação! Mas não seriam estes os traços de toda existência autêntica, que se deixa afetar (os afetos), que se lança na delícia e no abismo do cotidiano, e que não sabe como será o próximo inverno? Não importa, o choro de Elio pode causar o efeito inverso: não apagar, mas acender a última vela da chanukiah.

PS: Como romântico deslocado que sou, achei uma “covardia” o Oliver não ter permanecido, não ter insistido, não ter dado um jeito para continuar aquele amor – ele continua na memória – mas acabo de ler que o filme terá a oportunidade de uma continuação, o que nem sempre na vida é possível…

BRUNNO ALMEIDA MAIA – foto Fabíola Chaguri

BRUNNO ALMEIDA MAIA é pesquisador em Filosofia pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), pesquisador residente do NECMIS (Núcleo de Estudos Contemporâneos do MIS – Museu da Imagem e Som), docente da cadeira “Expressões Artísticas Contemporâneas”, no Técnico de Produção de Moda do SENAC Lapa, professor convidado do Departamento de Pós-Graduação, Extensão e Cursos Livres da FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado e do Centro Universitário Belas Artes, ministrou aulas sobre a relação entre a literatura e a moda ao lado do estilista brasileiro Walter Rodrigues e do chapeleiro Eduardo Laurino, em espaços como Oficinas Culturais Oswald de Andrade, Oficina Cultural Casa Mário de Andrade, Sesc Consolação, Sesc Pompéia, Sesc Ipiranga, CPF – Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, Sesc Jundiaí, Casa da Palavra Mário Quintana, em Santo André (SP), Oficina Cultural Hilda Hilst, em Campinas (SP), Galera AMDO, em Belo Horizonte (MG), Biblioteca Mário de Andrade, Fábricas de Cultura, Biblioteca Pública Pedro Nava, Escola São Paulo. É autor do livro “O Teatro de Brunno Almeida Maia” (Editora Giostri, 2014), assina capítulo sobre a relação entre a literatura e a moda no romance Lucíola (1862) de José de Alencar no livro “Moda Vestimenta Corpo” (Editora Estação das Letras e Cores, 2015), e é um dos autores da antologia “São Paulo em Palavras” (Editora Aquarela Brasileira, 2017). Foi facilitador pedagógico do módulo I de formação em Cidadania e Direitos Humanos do Programa “Transcidadania”, uma iniciativa da Prefeitura Municipal de São Paulo, com a CADS (Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual) e Centro de Cidadania LGBT SP.

Deixe um comentário